5 obras infantis muito macabras

Você já reparou nisso? Eu já. Existe um monte de obras infantis que, mesmo com o argumento óbvio de ser uma obra “para crianças“, possuí um grau de estranheza tão grande que, notavelmente, poderiam encabeçar qualquer lista para adultos. Algumas nem são classificadas como “infantil“, mas são normalmente associadas a elementos lúdicos e a, supostamente, alegria e felicidade.

No entanto, analisando mais a fundo, vemos que os criadores exageraram nas droguinhas e criaram um universo totalmente soturno. Seja pela soma dos elementos, pela execução, pelo tema, o que for, você olha aquela obra e fica pensando “só eu acho isso bizarro demais?“. Pois não, eu também acho. E garanto que muito mais gente concorda.

Resolvi, então, fazer uma lista com as 5 obras infantis que eu considero muito macabras. Antes de começar, acho justo deixar claro que não acho nenhuma das obras essencialmente ruins. Muito pelo contrário, sou fã de todas. Mas, isso não anula o que eu penso sobre elas e como, por vezes, elas são excêntricas em demasia. Siga:

1 – Fantástica Fábrica de Chocolates (original)

Como diz um comentário do Filmow, “…esse clássico lindo de terror para crianças…”. Muito bem definido.

É estranha a sensação deste filme, durante todo o trajeto dos participantes no “jogo” dentro da fábrica. Ao longo da execução da obra, parece que, por vários momentos, o filme é mais do que meramente uma história infantil fantástica.

Primeiro com o Willy Wonka, que é excessivamente sarcástico e meio sádico, vendo todo mundo se foder e dando risada, para assim “eleger” seu substituto; no final, ainda mostra um lado depressivo, como se estivesse de saco cheio de tudo e a fábrica fosse um fardo. Além dele, ainda tem aqueles Oompa Loompas, anões miseráveis, com uma expressão meio malvada e sempre com músicas ironizando todos os acidentes, cantando “if you’re wise You’ll listen to me” (se você for sábio, você vai me ouvir), que ainda por cima se assemelha a uma cantiga medieval, com cravo e tudo.

Fora isso, ainda temos aquela fábrica, cheia de “mistérios” e alas inacessíveis, sempre com o “proibido tocar nisso, proibido tocar naquilo“. Mexem com a criatividade e despertam uma curiosidade infantil óbvia, mas ao mesmo tempo “podam” tudo, tornando um martírio para os escolhidos poder resistir até o fim sem cair em alguma das armadilhas previamente elaboradas.

Graficamente, a execução da obra também é interessante. Mesmo muito colorido, o filme ainda parece ser escuro demais, vários pontos e partes são carregados de sombras e de muitos momentos aonde as salas aparentemente tem pouca iluminação. Este elemento, aliado aos outros citados, deixa tudo com um ar ainda mais sinistro.

2 – Alice (Disney)

Já fiz um post sobre Alice, já citei suas releituras (inclusive uma de terror), mas sempre é bom recapitular. Até porque, este item, trata de uma das releituras em específico: Alice da Disney. Outra obra infantil que possuí um toque profundamente macabro.

A obra original, prezava pelo nonsense, a ideia onírica de que não há lógica no universo dos sonhos. A versão de Disney se utiliza disto, mas acrescenta um toque macabro demais.

Primeiro, pelos seus personagens, todos com uma estranha visão de mundo e atitudes bizarras; não atitudes ilógicas, como no mundo onírico, mas atitudes moralmente dúbias e cercadas de racionalidade. Como o caso de Tweedlee Dee, Tweedle Dum e o Gato, meio stalkers, irônicos, vivendo em uma imensa floresta sozinhos e aparecendo só sobre circunstâncias misteriosas, sempre no encalço de Alice. Ou as flores, psicóticas tentando se ver livre da protagonista. Ou ainda a própria Rainha, querendo degolar todo mundo. Por sinal, você já percebeu que este é um dos poucos desenhos da Disney que usa o termo “matar“? O sonho de Alice é completamente mal, em sua raiz, com várias passagens não só com uma distorção total da realidade, mas fazendo referência, sim, a um comportamento meio estranho em demasia.

Além disso, como no caso do item anterior (A Fantástica Fábrica de Chocolates), se você reparar, é uma obra que por muitas vezes é escura demais, aparentemente densa demais; recheada de tons em preto, outras cores neutras e azul escuro. Como na passagem que a Alice perde o caminho e fica sentada, sozinha e chorando. Tudo intensamente cheio de sombras e sem muita luz, dando uma noção de grandeza e solidão extrema no mundo em questão.

Pra completar, temos alguns elementos não esclarecidos mas que tornam tudo mais interessante. É o caso de, quando na “festa do chá”, o Chapeleiro e a Lebre destroem o relógio e o desenho simplesmente fica alguns frames em preto e branco, totalmente fora de contexto.

3 – Caverna do Dragão

Este aqui não é nem tão bizarro em sua criação, fica mais a encargo de toda mística em volta da obra. Tirando o fato de que crianças entraram em um túnel para uma dimensão paralela e agora lutam por suas vidas e para retornar para casa, o desenho seria bem normal, bem dentro da realidade de muitas outras obras parecidas.

A bizarrice da obra está, principalmente, na lenda urbana gerada através do seu último episódio. Eu sei, não faz parte do traçado “original” do projeto, mas de qualquer forma a lenda é tão forte que ficou ligada à obra, fazendo parte do discurso em torno da mesma. Todo mundo sabe – ou deveria – que o último episódio não foi gravado. Então, a especulação através dos fãs rolou solta, criando mil finais diferentes e todos imensamente sádicos. A especulação mais forte e conhecida dizia que, na verdade, eles não tinham parado em uma dimensão nova paralela ao universo “real”, mas que o carrinho tinha virado e todos estavam mortos; lá, aonde eles viviam, era o inferno. Nenhum deles teria sido suficientemente bondoso em vida e, por isso, passaria toda sua eternidade lutando com as mais vis criaturas. A tentativa de voltar pra casa era em vão.

Agora você imagina na época que a internet não existia, que essa lenda se propagou como um vírus e, justamente, através das crianças que assistiam que se tornou moda. Uma maneira muito bizarra de acabar um desenho sem um final aparente. Todo mundo acreditava nisso e ficava meio cabreiro com a obra, achando-a profundamente cruel. Depois de muito tempo, um dos criadores foi a público e explicou tudo, revelou o final verdadeiro, mas mesmo assim não adiantou. A lenda já tinha tomado conta.

4 – Casa Monstro

Essa é a obra mais recente aqui do post. Um filme de animação de 2000 e poucos. Trata-se de um moleque que tem como vizinho uma casa mal-assombrada, que ganha vida e faz umas maldades. Mas só ele e o amigo conseguem vê-la em “ação”, porque a casa só mostra seus “verdadeiros” poderes para os dois. Como era de se esperar, todo mundo acha que ambos são mentirosos e, sozinhos, eles querem provar a verdade.

O filme nem é uma obra tão bizarra assim, como os antecessores citados acima. Não tem personagens (muito) loucos, nada demais. E, tirando o final que é realmente meio estranho demais, não há nada de muito diferente para outras animações. O que faz esta obra entrar na lista é, principalmente, a escolha artística usada pelo seu criador.

A captura de movimentos aliada ao 3D realista, somado a um cenário extremamente sombrio (priorizando cores escuras, como preto e azul) deu ao desenho um caráter desconfortável, causando um conflito de sensações ao ver a animação, em um primeiro momento. Pessoalmente, eu credito isso a uma teoria famosa, conhecida como “uncanny valley“. O fato do desenho se assemelhar a traços humanos, mas ser reconhecidamente não-humano, traz uma percepção de estranheza a quem assiste, um desconforto a primeira vista. Aliando isso ao uso constante dos tons escuros, da preferência pelo uso excessivo de sombras, toda a obra fica com um ar meio lúgubre, uma tristeza meio inconsciente.

Eu confesso que foi estranho ver pela primeira vez, um desenho meio do mal. Mas, não é nem uma opinião exclusivamente minha.

5 – Mágico de Oz (livro e filme)

Esse é um clássico solene. A história é completamente bizarra, uma mistura de depressões e elementos macabros, mas ninguém repara isso se não analisar separadamente.

Começando pela protagonista, uma menina novinha que cai em um mundo completamente desconhecido, mata uma bruxa e é perseguida pela outra (sua irmã), que quer vingança. Já aí, temos uma série de personagens, um tentando matar o outro, fazendo mundos e fundos para chegar ao seu objetivo sádico. Somando isso, temos os 3 companheiros que ajudam na viagem, cada qual com um problema pessoal, movido por incertezas e tristezas, encarando o mundo da forma mais depressiva possível. Isso, sem contar o próprio Mágico de Oz, mentiroso e enganador, vivendo da sua própria verdade e afundando uma legião de pessoas e cidades nela.

Só com esses personagens problemáticos, temos uma obra muito mais intensa do que se aparenta. Mas, além deles, ainda temos o mundo de Oz, que possui umas paradas mais bizarras ainda. Como a floresta das papoulas – aonde as pessoas podem “dormir eternamente” (= morrer) – ou a Cidade da Porcelana, aonde tudo pode “quebrar” e deixar de existir, também.

Um livro (ou filme) que sempre remete aos conflitos de personalidade e com o tema recorrente de morte e/ou solidão. Bem extremo, por assim dizer, embora não pareça. Além disso, claro, Dorothy sempre tentando se “esquecer” da presepada que se meteu e tentando, a qualquer custo, voltar pra casa.

bônus:

Adventures of Mark Twain

Esse aí ganhou o mérito de bônus porque, de fato, dado o excesso de “estranheza”, foi proibido de ser passado para o público infantil. O desenho homônimo conta, através de animação com massinhas, várias pequenas histórias do autor Mark Twain. Em uma delas (o curta proibido), os personagens são levados por um ser sinistro, quase como um Diabo, para conhecer as questões de causa e consequência propostas em uma sociedade fictícia. Temos morte, dúvidas sobre inferno e céu e, além de tudo, um dos personagens mais estranhos já criados. Tudo isso em pouco mais de 4 minutos e, supostamente, para crianças. Tenso

Bom, galerinha. Por enquanto é só. Vejam e sigam-me!

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25 pensamentos sobre “5 obras infantis muito macabras

  1. Muito bom, este é um assunto de interesse geral. Eu estava louca atrás deste assunto e fiquei satisfeita com o que li!
    Parabéns belo trabalho!

  2. que tal a historia original da bela adormesida na qual ela fica com um espinho preso de baixo da unha e adormese de pois é abusada é 9 meses de pois da a luz a gemeos que chupan seu dedo e tiran o espinho de pois o rei que obusou a prinsesa leva ela para mora no castelo mais sua mulhe tenta matala junto com os gemeos mais é o rei que mata a esposa bizarro nao

  3. Muito Interessante o modo o qual você consegue ver este filmes, ja houve muitas vezes que pensei em coisas parecidas mas tenho deixado de lado, Parabéns fico aguardando os próximos relatos !!

    1. Pois é, eu confesso que eu passei muito tempo pensando sobre eles. São filmes que passam uma sensação “estranha” mas você não sabe ao certo o que é. Depois de muito tempo que eu percebi que, realmente, o que me incomodava era que, de fato, todas tinham um ar muito “obscuro” que as vezes a gente nem percebe.

  4. Então, como eu havia pensando,depois que eu li a da Dhoroty , eu fiquei assim,meio constrangida,pq é um desenho tão lindo e fofo, e se tornar a bizarrice que vc escreveu,eu nunca tinha pensado por esse lado,muito bem, amei a sua matéria , até pq eu amo terror,parabéns, estou ansiosa para os próximos relatos, e eu quero te dizer uma coisa que vc continue assim certo ??

  5. Parabéns pelo post, Lucas!

    Você soube detalhar muito bem esse sentimento estranho que dá assistir filmes assim. São infantis, sim, mas é tudo muito sombrio, escuro, antigo… É estranho, parece que tudo está cercado de segredos, misticismo… Como a impossível e insaciável curiosidade das salas secretas de “A Fantástica Fábrica de Chocolates”…

    Espero um post segundo post muito mais completo sobre esse assunto, pois amei seu modo de descrever esses filmes!

  6. todas essas obras, em seu significado profundo nos mostra o crescimento e a realidade da vida.Como citado com frequençia nos textos e o onirico o imaginario infantil onde vivem todos esses contos surreais. Veja em algum momento todos crescemos e forma infantil e magica de ver o mundo nao permaneçe a mesma, afinal somos confrontados com todas as verdades perturbadoras que a vida possui.Neste filmes a aparençia a embalagem e colorida bonitinha e alegre assim como vemos o mundo na menor idade, Somos pequenos mas mesmo assim ja vivemos situaçoes sombrias dramaticas tristes não ha como escapar.E isso que essas obras fazem esteticamente nos e mostrado a partir da visao de uma criança cores, situaçoes bobas e aparentemente tudo muito facil de se entender e resolver, mas no fundo traz toda a duvida medo estranheza que a vida tem de monte.

    1. Realmente, é uma boa análise. Tanto que na maioria destas obras é retarata fortemente a solidão (dos amigos, da família, ou de todo mundo) e, realmente, este é um medo de quando deixamos de ser criança e passamos a ver o mundo como “adultos”.

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