São Manoel e a história das balas invisíveis

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Pois é, galera. Se lembram que eu comentei que iria fazer um tópico especial sobre o São Manoel e as minhas histórias mirabolantes? Acontece que eu percebi que eu era uma criança tão horrível, um aluno tão tosco, que apenas UM post, com uma lista só, era um mero desrespeito às minhas memórias. Resolvi, então, individualizar os contos, como fiz com o “causo” da boneca. São tantas coisas que isso vai render bastante.

Sabem o “alinhamento pessoal” usado para definir personagens em Dungeons & Dragons? Se não sabem, leiam aqui neste link (é interessante esta parada, inclusive para brincar de fazer listas). Resumidamente, se trata de uma série de características ao qual um indivíduo se encaixa em um determinado grupo. Me lembrando do meu passado, eu percebi que fui um aluno completamente insano no colégio. Eu era um chaotic evil tranquilamente, pronto para ver o circo pegar fogo e o caos reinar dentro das dependências acadêmicas. E esta história é bem por aí.

Enfim, que se comece o “causo”… lá pelos meus tempos de primeiro grau, aquela época sem muitas responsabilidades e cobranças, eu estudava no São Manoel. Como bem disse, era um colégio de turno integral; o dia todo lá, entrava de manhã cedinho e só saia quando já estava baixando o sol. Aula, apenas no período da manhã. À tarde, hora de fazer o dever de casa, atividades extras (como futebol e informática) e, na maioria do tempo…nada. Absolutamente nada. Você já pensou como fica um bando de crianças juntas, cheias de energia e sem nada pra fazer? Pois é, pensando merda. Muita merda. Cabeça vazia é oficina do Diabo, como diz o famoso ditado.

Como eu, existiam mais alguns. Um aluno problema sempre encontra o companheiro de crime; é quase como um imã natural, alguma lei da física, ambos se acham com uma facilidade assustadora. Pois eu, como um bom aluno problema, tinha o meu parceiro para elaborar merdas, o Andrey. E, além do amigo, havia quase que um dia inteiro livre para pensar nas mais engenhosas arapucas mentais. Era um grande tempo para bolar planos e mais planos, teorias e mais teorias. Nada de bom, obviamente.

Quando estávamos pela quinta-série, existia um molequinho mais novo que meio que nos seguia todos recreios, o Mathias. Ele tinha uns problemas, dificuldade de aprendizado e tal, mas era gente boa; ficava ali nos seguindo mas não incomodava; até ajudava, caso precisasse completar em quantidade, para alguma brincadeira. Por causa da dificuldade de aprendizado, ele não tinha muitos amigos da turma e idade dele, o que era mais um motivo para andar para cima e para baixo com a gente. Criança é cruel mesmo; os caras taxavam ele de burro, ele não fazia amigos e aí andava com os mais velhos, como nós.

Um dia, matutando besteira – pra variar um pouco – a gente teve a genial ideia de fazer uma brincadeira com o Mathias, só para descontrair. A gente estava na quinta série, ele na segunda, óbvio que iria cair. Era quase um dever moral. Não era nada maldoso, nós não iriamos matar ninguém, então pra que não se divertir? O plano era bem simples: comprar balas e fingir que eram “balas mágicas”, que deixavam qualquer um invisível. Ideia genialmente simples, coisa de mestre.

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Chegou o recreio, nós lá com as balas. Era o recreio grande, depois do almoço, que durava cerca de uma hora e meia. Estávamos ali como sempre, embaixo de um banco que ficava perto de uma árvore grande, quase na divisa com o portão de saída do colégio. Era bom porque fazia sombra, o que era essencial depois de um almoço no verão. E o mais importante, claro, era um lugar meio vazio, ninguém ficava naquela região; importante para por a brincadeira em prática. Passou um tempo, nós conversando, aparece o Mathias:

– E aí, Mathias. Tudo certo? Mathias, olha só isso! Cara, tu nem vai acreditar! O Andrey estava revirando a casa dele ontem, e olha o que ele achou…era da mãe dele, é mágico! Essas balas deixam a pessoa invisível!

– Mentira de vocês, isso nem existe, eu sei que é mentira!

Mathias, a gente não iria mentir pra ti. É sério! A mãe do Andrey é meio bruxa, mexe com essas coisas, essas balas funcionam!

– Não funcionam não!

– Dúvida que funcionem?

– Dúvido!

– Então come uma, prova aí! Se tu não ficar invisível, é porque ninguém mais fica!

– Aé, mas porque vocês não provam antes?

Pergunta crucial…aquele silêncio, momento de uma resposta rápida para não ser pego na própria pegadinha. E veio:

– É porque nós só temos uma bala! O Andrey só achou uma!

– A, sério? A, mas…mas…para…se vocês…puts. Tá bom, eu provo. Mas eu sei que é mentira. Nunca vai funcionar.

Beleza, a parte mais difícil havia se cumprido: convencer o Mathias a comer uma “bala mágica”, de cunho duvidoso, que deixasse a pessoa invisível. Depois disso, o resto era barbada, só inércia, simples questão de causa e consequência. Andrey, rapidamente, tirou a bala do bolso e deu para Mathias. Era uma daquelas balas baratas, tipo as famosas 7 Belo. Mathias comeu sem hesitar. E aí entrava a parte genial da ideia, de todo a peripécia sabiamente bolada: o grande espetáculo do fingimento.

Mathias mastigou, esperamos uns segundos e pronto, o “plano” enfim surtia efeito. Nós, eu e Andrey, olhávamos para o nada, ficávamos andando para lá e para cá, quase como zumbis, gritando “Mathiaaaaas, aonde tu tá? Mathiaaaaas, volta logo! Para de brincar, aparece de uma vez!“, realmente fingindo que o vivente estava completamente invisível, que tinha sumido do mapa e nós não podíamos vê-lo. E o Mathias acreditou que as balas funcionavam, ria e achava que era invisível de verdade. Vitória nossa. Obviamente, como num efeito bola de neve, ainda bebendo no cálice do sucesso, não aceitaríamos que um plano tão genial acabasse tão rápido. E resolvemos ir além. Sem nem precisar combinar um com o outro, foi quase ao natural seguir com a brincadeira.

Segundo a nossa lorota, o efeito da “bala invisível” era rápido, durava um minuto, por aí. Passado mais ou menos o tempo, Mathias começou a tentar “desinvilizar”, pulando e se contorcendo, na esperança de “reaparecer”. E nós, ainda fingindo, insistíamos que ele continuava totalmente invisível, que nós não conseguíamos ver nenhum pedaço dele. E aí a coisa degringolou:

– Gente, gente, acabou o “um minuto” e eu ainda tô invisível!

– É Mathias…acontece, sei lá…isso é estranho, já era pra ter voltado ao normal. Nunca aconteceu isso antes!

– A, por favor, parem com isso, não tem graça. Como assim? Eu vou voltar, né?

– Sei lá, Mathias. Não sei o que fazer, a gente nunca viu isso. Era pra gente estar te vendo! Mas vai saber, essas coisas mágicas não funcionam direito as vezes. Pode dar errado, não sei.

– A, sério, para com isso. Por favor, eu quero voltar ao normal. Por favor. Não quero mais ser invisível.

E Mathias desatou a chorar. Se lavou chorando. E nós lá, sob efeito da bola de neve, insistindo que ele ainda era invisível e que não conseguíamos vê-lo. Chorava, chorava e nada jogava a seu favor, o efeito da bala tinha dado errado. Não havia antídoto para as “balas invisíveis”, ele estava fadado a passar a eternidade nesta condição. Ele tentava de tudo, cogitou com a gente se não existia outra bala antídoto, que tinha que existir uma volta para ele. E nós, negando. E o choro, aumentando.

Nisso, a gente ainda ali, no mesmo banco perto da árvore, junto com o Mathias invisível e chorando, aparece o Seu Wallace. Grande Seu Wallace, aquele tiozão de meia idade destinado a cuidar do pátio, do recreio, para que nenhuma criança se matasse; ou que matasse os outros. Era aquele funcionário para evitar problemas, o apaziguador que todo colégio de padre tem, quase como um zelador. Passou por ali, viu o Mathias em franco berreiro. Perguntou o que tinha acontecido e pasmem…conseguiu VER o Mathias. Era o fim de tudo, a mentira foi-se embora, acabará a brincadeira e nós estávamos fodidos. Tinha caído a casa.

Fomos para o SOE, tomamos (mais uma) bronca, bilhete na agenda, aviso para os pais e castigo sem poder ficar no recreio até o final do dia. Aquela vida comum de meliante acadêmico reincidente, ao qual estávamos acostumados fazia anos. Seu Wallace já nos conhecia de longa data; as broncas eram corriqueiras, quase diárias. Tudo foi explicado, Seu Wallace ria e Mathias nem tanto; levamos a bronca, a moça do SOE fez aquele longo discurso sobre amizade, brincadeiras e tudo mais. Aprendemos a lição? Não tenho certeza. Mas aprendemos que nenhum plano é perfeito, infelizmente.

Eras isso. Boa Noite e siga-me! Até a próxima!

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5 pensamentos sobre “São Manoel e a história das balas invisíveis

  1. Olá Lucas, achei muito interessante o seu post, afinal quem nunca aprontou no fundamental? (Como se no colegial fosse diferente)
    Dei boas risadas. Já fiz algo muito parecido, nada como aprontar um pouco para se distrair…

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