Os grandes e sua grandeza

Eu nem iria postar isso aqui, mas como bom gremista eu devo.

Os recentes fatos que ocorreram com o Kleber Gladiador, sua lesão e afastamento dos gramados por um bom tempo, me levam por forças maiores a contribuir para o “causo” como achar melhor. Claro, nada disso seria possível sem mais uma aparição indigna daquele senhor que hoje habita o cargo de presidente do clube, novamente falando o que não deve para muita gente ouvir. E o pior é que, neste caso, muita gente ainda aplaudiu.

Antes de continuar a escrever, eu gostaria de deixar claro que toda minha argumentação abaixo não é  “privilégio” de uma situação isolada que ocorre exclusivamente no Grêmio, mas está presente em praticamente todos outros (auto) intitulados “grandes” times do Brasil, que ao longo das últimas décadas aumentaram a disparidade para os clubes pequenos, como ocorre atualmente na Europa. Só contextualizo com o Grêmio em si porque é o clube que eu conheço e acho mais fácil de explicar, justamente por causa da recente situação que ocorreu.

Mas, voltando ao assunto do post e o “porquê” de sua origem, é preciso saber o que o senhor excelentíssimo presidente andou falando após a lesão, em mais uma entrevista coletiva.

Resumidamente, o cidadão argumentou que o Grêmio, na sua “grandeza”, não poderia jogar o Gauchão nas atuais condições/moldes, justamente porque poderia gerar um prejuízo anual (como uma lesão) e, não fossem tomadas medidas drásticas, principalmente sobre a arbitragem, um time da “grandeza” do Grêmio cogitaria não participar do campeonato no ano que vem. Ainda terminou toda sua verborragia inútil com um dizer que eu achei crucial, algo como “o Gauchão não tem mais o mesmo valor que tinha nos anos 70“. Nem vou comentar o oportunismo da entrevista coletiva em si, no momento que foi dada e COMO foi falada, porque isso já é costume para alguém que se interessa mais por política do que por futebol. Vou contar-lhes uma história curta, que isso sim interessa:

A família de Adalberto e Melissa teve dois filhos gêmeos: Márcio e Roberto. Ambos nasceram com proporções iguais, eram extremamente parecidos e praticamente pesavam a mesma coisa. No entanto, devido a uma complicação no parto do segundo filho (Roberto), Melissa veio a falecer. Adalberto, devido ao trauma, não conseguiu desenvolver afeto pelo filho. E assim a família foi criada pelo resto de seus dias.

Márcio com uma vida fácil, ganhando tudo que podia, fazendo escolinha de futebol, Caratê, duas línguas adicionais e tudo mais. Comia bem, tinha um café farto, 6 refeições, boas escolas, cresceu, ficou forte, um cidadão qualificado e um baita profissional. Já Roberto, não. Criado na mesma casa mas sem nenhum recurso, Roberto começou a trabalhar desde os 12 anos, nunca teve tempo para os estudos, não se formou, tinha um trabalho medíocre e não conseguia se sustentar. Vivia pedindo ajuda à Márcio, que aos 20 anos já trabalhava no exterior, com um cargo bom em uma boa empresa.

Adalberto, o pai, na velhice, veio a ficar doente. Com o medo da morte, chamou os dois filhos e conversou com ambos. Pediu perdão a Roberto, admitiu suas injustiças e explicou tudo. Contou do trauma, contou de suas dificuldades, disse que fora tudo uma grande bobagem e queria suas desculpas. Roberto concedeu. E veio a morte do pai, com um testamento e cerca de meio milhão em dinheiro. Era a chance de Roberto ajeitar sua vida. No entanto, a surpresa aconteceu ao se ler a carta: “deixo todo meu dinheiro para aquele filho que se mostrar um cidadão mais competente ao longo da vida”. Márcio ganhou o dinheiro, Roberto faliu, quebrou e acabou se suicidando. Fim.

Compreenderam?

É fácil interpretar, não me decepcionem. Embora a contextualização em outro ambiente, é só estabilizar as relações. “Adalberto” significa os gordos arregos recebidos por determinados clubes, como mídia, patrocínios de contratos não divulgados e colaboradores com renda escusa em paraísos fiscais; “Márcio” representa os clubes grandes, felizes e fortes; “Roberto” representa os pequenos, fadados a morrer lentamente. Isso, não apenas em um nível estritamente brasileiro, mas mundial. Simples, não? É isso que acontece gradativamente nas últimas décadas, intensificando-se nos últimos anos em especial. A súbita grandeza dos supostos “grandes clubes”, criando uma disparidade monstra para o resto do futebol, ao qual era diluída antigamente.

Alias, o que é ser um “grande clube“? O que define a “grandeza”? A torcida, os títulos, a estrutura? Uma vez eu fiz essa pergunta em um fórum online e absolutamente NINGUÉM deu a mesma resposta, justamente para provar que “grande clube” é um conceito totalmente subjetivo. Não existe um “grandômetro” pra medir merda nenhuma; simplesmente criaram o termo, definiram para meia dúzia de times e pronto, acabou. Ser grande é ter torcida no estádio? E o Remo e o Santa Cruz, com médias gigantes de público durante o ano todo para ver a série de acesso? Ser grande é estar sempre na reta final dos campeonatos? E o bando de clubes que está aí, sem ganhar nada há 10, 20, 30 anos? Ser grande é jogar bem em campeonatos intercontinentais? E a quantidade de clubes que nunca fez porra nenhuma em um campeonato intercontinental? O que é ser “grande”?

Odone afirmou que um clube da “grandeza do Grêmio” não poderia jogar Gauchão. Mas afinal, o que é “ser grande” para ele? É o mesmo que os outros gremistas pensam? Temos um consenso sobre o termo “grandeza” na torcida? Todos achamos que o Grêmio é “grande” pelo mesmo motivo? Tem gente que acha aquele time de 2007 uma maravilha, raçudo, pegador, “um time da grandeza do Grêmio“, como diziam por aí. Eu – assim como muitos outros – achei um time de pernas de pau que arregou na final. E aí, quem está errado? Nós ou eles?

Para o bem da verdade, não há consenso sobre o termo em si. Simplesmente definiram uma elite futebolística sobre um contexto completamente irracional, direcionando uma série de (supostas) vantagens a meia dúzia de clubes, justamente sobre o preceito do “merecimento” ao qual, as vezes, vem de um argumento que ninguém consegue explicar. Como que cerca de 6 clubes, na prática (porque no papel são 13), decidem o futuro de todo futebol do Brasil? Qual a desculpa utilizada, a renda arrecadada? Afinal, eles geram mais renda que os outros, não? Todo mundo quer ver um Fla x Flu no domingo, mas ninguém quer ver Remo x Paysandu. E o ciclo retorna. E aí que entra o meu pequeno conto lá em cima, sobre Márcio e Roberto. Porque todo mundo quer ver Márcio e caga bonito para Roberto? Márcio foi um grande merecedor e Roberto um grande azarão, levado pela vida ruim?

É neste ponto que, ironicamente, voltamos ao futebol de 50, 60 e de 70, uma das décadas que o queridão citou na entrevista, dizendo que o Gauchão “tinha valor naquele período“. Nesta época, o futebol brasileiro queria estar “centralizado” entre o menor número de clubes possíveis, de preferência nas capitais, justamente para “facilitar” a distribuição de renda de TV e patrocinadores, assim como criar uma “imagem unificada” do que os governos da época definiam como “o povo brasileiro”. Basicamente, era mais fácil para um fulaninho pagar mil reais para um mesmo clube, com as mesmas cores e os mesmos torcedores, do que dividir cem reais entre dez clubes diferentes, com cores diferentes e em lugares diferentes. A padronização do futebol em seu início, ainda na pré-história. Mas como escolher o clube “certo” a investir, de forma que a renda gasta fosse recompensada e todo mundo envolvido na negociação ficasse feliz? Fácil: favorecer a vida dos mesmos times que tivessem investido grana.

Foi neste mesmo período que os “misteriosos” favorecimentos começaram a existir. Precisava-se criar uma gama de torcedores (ou “torcedores”) de poucos clubes, de modo a torna-los rentáveis e felizes consumidores gastões. E aí que nossos honestos e imparciais meios de comunicação entraram pesadamente, influenciando criteriosamente sobre a forma como a mensagem era repassada para o povo. Transmitiam uma minoria de jogos de determinados clubes “escolhidos”, os narradores era instruídos a narrar o gol de certas agremiações com mais emoção, juízes facilitavam a vida de algumas equipes, os campeonatos exibidos e comentados se concentravam em pequenos círculos de cidades, principalmente sobre as capitais do eixo sul-sudeste. Tudo isso para que o futebol de lá se fortalecesse, que determinadas equipes ganhassem destaque, unificassem a imagem do torcedor e, consequentemente, gerassem mais renda para uma minoria.

Como os jogos eram caros e o salário do brasileiro era uma merda pior do que a de hoje, a única maneira para milhões de pessoas acompanharem seus times locais – no rádio ou em uma arcaica TV – foi extinta. Eles foram obrigados a acompanhar as transmissões dos gloriosos times de longe de suas regiões, porque a TV quis, achou que era mais legal assim. Com o passar dos anos e a falta de contato com o time local, cessou o interesse pelo mesmo. E foi aí que surgiu este número absurdo de “torcedores mistos”, de gente que torce para time do outro estado, de torcedor que “ama” um time que nunca nem viu na vida. Porque os clubes locais foram, literalmente, assassinados. E isto não foi exclusivamente um processo brasileiro, mas sim de muitos lugares, como o campeonato espanhol, por exemplo. E também não é nem uma opinião maluca só minha, você pode ver aqui, aqui, aqui, aqui e aqui*:

A polarização do futebol como esporte em poucos “clubes grandes”, como a alcunha diz, foi um longo processo criado por uma série de favorecimentos, principalmente nas décadas passadas, ao notoriamente “escolherem” determinados clubes para tornar tudo mais fácil de se tornar rentável. Viu como minha história se encaixa? Os fortes se tornaram fortes porque assim alguém os fez. Não, não houve um pózinho mágico, uma magia de outro planeta. Pura e simples troca de interesses. E isso se perpetua até hoje, ou até mais que antigamente. A FGF é reflexo claro disso. Na medida que os clubes grandes recebem muito mais renda pela participação no Gauchão que os pequenos, a disparidade aumenta ano a ano. Como o último texto postado ali (nos links acima), é engraçado como o futebol atual, na conduta de um ESPORTE, presa por diminuir cada vez mais a competitividade, que é a base LÓGICA de qualquer esporte. Se não existe competição, para que existir o esporte? Analise este belo caso da FGF:

Os clubes da capital, Grêmio e Inter, que historicamente sempre tiveram mais oportunidades frente aos clubes pequenos, que possuem patrocínios mais graúdos, que possuem maiores torcidas, que possuem N formas de viabilizar uma arrecadação maior de capital…recebem MAIS dinheiro da federação. DA FEDERAÇÃO. Aquele órgão que supostamente deveria agir pelo bem do esporte, consequentemente da competitividade, que deveria de todas as formas tentar equalizar os times do Gauchão, justamente para criar um estado fortemente competitivo, prefere que isso não aconteça. Ela quer que a maioria se foda e uma minoria se dê bem. Assim vende fácil, né? E aí vem a ironia de tudo, de dizer que o “campeonato gaúcho não é mais o mesmo” a aquela choradeira fodida. Os “grandes” reclamam sobre a qualidade, a FGF reclama sobre a qualidade, mas o que eles se dedicam a fazer é, justamente, que a qualidade seja limitada a uma pequena parcela, de modo que a maioria fique cada vez mais na merda, mais fodida e, em consequência, torne o campeonato cada vez pior. Os “grandes” enrabam os clubes pequenos e ainda reclamam que não ganharam “muito obrigado” depois.

E o triste – e maior – paradoxo disto tudo é a situação do Grêmio, ao qual é “grande” no contexto regional, mas não tem todo este poder político em um âmbito nacional. O argumento facilitador que o senhor Odone usou sobre “grandeza” e o quão o Grêmio é um clube superior aos pequenos do Rio Grande do Sul, vai ser o mesmo argumento facilitador que determinados clubes usarão para ganhar mais dinheiro que o Grêmio nas cotas de TV, o mesmo argumento que o STJD utiliza para facilitar a vida de um outro clube do sudeste e ferrar o Grêmio em todos julgamentos. A defesa do argumento de “grandeza” que agora nos serve, é a mesma que nos fode ali na frente, no Brasileirão. Afinal, o Grêmio merece uma parcela irrisória das cotas de TV, o terceiro escalão, porque não é “grande” o suficiente como outros clubes, né? E aí o Odone chora. Ou se omite. Assina um contrato escuso e não divulga pra ninguém. Grande fanfarrão.

Mas isso, sob uma óptica nacional, ainda é meio controlado. Os campeonatos de fora do país são piores ainda; o espanhol, então, beira o ridículo. Vou fazer uma previsão para os próximos dez anos: o campeão espanhol será ou Real Madrid ou Barcelona em todos os anos. Grande emoção, eim? Vibro de alegria. O mundo vibra. O futebol espanhol nem tanto; mas aqueles japoneses descritos no texto do último link adoram isso. E qual a graça? De vinte times apenas DOIS tem alguma oportunidade de fazer algo. E o coitado futebol inglês, que de VINTE E OITO DIVISÕES, apenas TRÊS times tem chances de algo? Quase 700 clubes e só 3 são “grandes”. Este mesmo argumento utilizado pelo sr. Odone, sobre o Grêmio não participar do campeonato Gaúcho pela “sua grandeza”, é o argumento que Real Madrid e Barcelona poderão utilizar daqui alguns anos para o campeonato espanhol. E já podem. Pra que fazer aquela merda todo ano, se só ganham os mesmos dois? Pula todo aquele bando de jogos inúteis – que cansa (e pode lesionar) as estrelinhas de ambos os times – faz uma final e acabou. Emocionante, não?

Voltando realidade brasileira, tentando aplicar a mesma lógica em um contexto nacional, eu cheguei a uma conclusão. Pra que eu tenho que enfrentar Botafogo, se eu sei que eles não vão ganhar? Não é “grande” como o Grêmio. Pra que enfrentar o Galo? Também não vai ganhar nada. Pra que enfrentar aqueles times que subiram, se eles não estão na mesma “grandeza”? Vamos enfrentar só os times que tem chance de algo, então. Aqueles 4 ou 6 que estão sempre lá no começo da tabela passam o ano se enfrentando, já que eles são “grandes” demais para perder tempo cansando seus atletas-estrelas com demais times de médio e/ou pequeno porte. Já imaginou se algum presidente diz isso? É a mesma situação, exatamente a mesma, em outras proporções. E não duvide que isso venha a acontecer daqui alguns anos, com as novas – e mais absurdas – cotas de TV mal separadas.

E o futebol, novamente, cada vez mais perde sua competitividade. E sabe o que é mais engraçado de tudo isso? O Grêmio, do alto do seu pedestal imposto pelo Odone, perdeu a primeira fase do Gauchão nas semi-finais, jogando muito mal durante vários jogos; nem na final conseguiu chegar; um time da “grandeza” do Grêmio foi eliminado, sem maiores entusiasmos. O grande Grêmio, eliminado para o pequeno Caxias.

Leiam e sigam-me! Boa Tarde e até a próxima!

*Só um ps: embora grande parte das notícias ali nos links estejam vinculadas ao Flamengo, para o bem da verdade, TODOS os clubes “grandes” recebem algum tipo de favorecimento. O fato de se encontrar só notícias do mesmo clube, nos links, foi coincidência. É bem verdade que todos os clubes da “elite” do futebol nacional, ora serão favorecidos regionalmente, ora serão favorecidos nacionalmente.

Editado às 18h28min de 06/04/2012: não sei que merda deu no bold (negrito) nessa postagem, que não funciona de jeito nenhum. Ficou esse quadrado cinza bagaceiro, que vocês estão vendo aqui. Por isso, resolvi tirar do texto.

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