O dia em que nós cantamos Reginaldo Rossi

Essa é das boas, coisa fina mesmo. Ia fazer um post sobre o São Manoel e a infância, com algumas peripécias da minha vida, mas resolvi protelar pra fazer com mais calma.

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Esta história ocorreu lá em meados de 2008, por aí, quando eu fui passar o Carnaval em São Lourenço do Sul com meus amigos. Antes de começar, quero situar vocês sobre o Carnaval de rua de Porto Alegre: é uma merda. Merda bem grande e fedida, muito sem graça, insuportável.

O pessoal todo viaja, debanda da cidade, deixa tudo vazio e fica parecendo apocalipse zumbi, uma cidade fantasma. Tirando um ou outro bloco que tenta dar uma vida aos bairros, fica tudo em um marasmo irritante. É Carnaval, porra, mas não tem o que se fazer. Nada mesmo, além de dormir ou jogar baralho. Mas, assim como o Carnaval de rua de Porto Alegre é uma merda, o do interior é muito bom e enche de gente; lotam as ruas, tem um monte de festas, um monte de blocos e, inclusive, algumas escolas de samba da capital vão lá tocar. E é por isso que nós fomos para lá.

Eramos apenas estudantes, pobres mas bonitos, cheios de disposição de curtir o Carnaval de São Lourenço do Sul. O grande Carnaval de São Lourenço do Sul, tão famoso por essas bandas.

A nossa emoção (e bebida) era tanta, que no primeiro dia nós já estávamos fazendo merda. Participamos ativamente da torcida de uma das concorrentes do Garota Verão, que acontecia na cidade quando desembarcamos da rodoviária. Estávamos lá, bando de turistas, quando chegou uma moça falando que a filha dela iria participar do Garota Verão, a Jéssica, e que gostaria do nosso apoio na torcida, porque contava pontos para classificação e tudo mais. Nós torcemos. Torcemos tanto que envergonhamos a família da moça, que meio que se arrependeu de pedir ajuda pra gente e queria nos matar no final. Culpa da cerveja. Ou do Marlos, amigo nosso que não sabe se portar muito bem em público.

Mas era primeiro dia, ainda estávamos meio atordoados com a viagem de 5h de ônibus, depois de contribuir para embelezar a torcida do Garota Verão, estávamos todos cansados e com a bebida já no fim. Não queríamos fazer noite de Carnaval, queríamos evitar aquele agito todo, nós pensávamos em fazer algo mais tranquilo, bem relax, para acordarmos bem no outro dia. E aí tivemos a ideia genial:

– Vamos para o boteco!

Mas não podia ser qualquer boteco cheio de classe e gente bonita, tinha que ser o boteco mais chinelão da cidade. Aquele frequentado por caminhoneiros, cachaceiros e ex-presidiários, para justificar a emoção da viagem.

Pra quem não conhece, São Lourenço do Sul é uma cidadezinha micro no sudeste do RS, perto de Pelotas e da Lagoa dos Patos. Quando eu me refiro a “cidadezinha micro”, estou sendo exato, porque a população da cidade é de 43.114 habitantes, segundo o IBGE. Interior total. Agora, imagine o boteco mais chinelão de uma cidade assim?

Era tipo isso. Alias, isso aí é chique, se comparado. O boteco que nós fomos ficava na frente de uma praça, meio que um terreno baldio, em uma subida, com uma inclinação que deixava a casa numa situação meio torta. Ali perto tinha a Boite (Boate) Sensação, algo assim, que era o grande point da cidade. O nosso boteco tinha um forro de madeira, era uma casa velha com duas partes. Na frente (a parte aberta), ficavam as mesas, aonde o pessoal sentava e ficava apreciando a bela vista da praça/terreno baldio. Na parte de trás, ficavam mais algumas mesas, as bebidas, o caixa…e a grande sacada da casa: A MÚSICA AO VIVO.

Sim, meus amigos, enquanto você bebia uma cerveja, servida pela dona do estabelecimento, o marido dela fazia um show ao vivo, com aquelas batidas de karaokê e um teclado Casio. Maravilhoso.

O boteco era tão “fim de carreira”, tão desgraçado, que podíamos analisar a situação pelos seus clientes. Enquanto o marido-músico tocava os clássicos do brega e dos anos 50, os cachaceiros de plantão interagiam, ora puxando o refrão, ora CHORANDO com a música. Sabe aquele bar tão fim de mundo que tem um bêbado dormindo na mesa, com uma chaçaca do lado? Pois é…

Conversa vai, cerveja vem, a gente ali, sentado e apreciando aquele momento sui-generis, sem saber muito o que fazer, queríamos aproveitar a situação. E foi aí que alguém deu a grande idéia da noite, quiçá do ano:

– Vamos cantar!

Mas como faríamos isso? Como que teríamos a ousadia de tirar o dono do bar do palco, no seu momento de orgulho, para que nós pudéssemos cantar para tal plateia tão animada? Foi aí que brilhou a estrela do Marlos, aquele lá do início do da postagem, que não sabe se portar em público. Se tem uma coisa que ele sabe fazer, é imitar. E imita bem. Silvio Santos, Fausto Silva, Ratinho, o que você pedir ele se vira e improvisa.

Beleza, chamamos a dona e explicamos:

Olha só, temos aqui o Marlos e ele é um grande cantor de Porto Alegre. Viemos aqui no seu bar, estamos gostando do ambiente e o Marlos gostaria de cantar uma canção.

Na mesma hora a dona abriu aquele sorrisão e deixou. Se emocionou toda, veio com uma máquina digital e queria tirar fotos do Marlos, o grande cantor da capital, para colocar em um mural que tinha no boteco. Ela avisou: era só o marido acabar aquela música, que era a nossa vez.

Tudo certo. Nos preparamos, fomos para a salinha coberta, aonde rolava a cantoria desenfreada, o grande Marlos subiu no palco e nós ao fundo, acompanhando. O marido da dona, então, perguntou qual música que ele teria de acompanhar no teclado da Casio, enquanto Marlos cantava. E Marlos, sagazmente mandou:

– Toca Garçom, do Reginaldo Rossi!

Foi um momento histórico. Deveriam existir estátuas sobre isso, espalhadas por todo o Brasil. A coisa começou bem, tudo certinho e o grande farsante Marlos improvisando bem, convencendo mesmo que era um cantor de verdade. A dona do bar tirando mais foto, e o resto de nós lá no fundo, com as mãos para cima fazendo coreografia, enquanto Marlos cantava.

Só que o Marlos não sabia a letra da música. Só alguns pedaços; aquele começo, o refrão, um ou outro trecho e acabou. E aí que veio o momento mais mágico de toda aquela situação, que já era humilhante o suficiente. Para disfarçar a falta de letra, quando chegava algum momento que ele não sabia cantar, Marlos levantava as mãos e largava sempre a mesma frase:

– Siimbooooorrraaa, meu povo!

E o pessoal participava. Cantava junto, ajudou o grande cantor da capital. Todo mundo se divertiu, a música rolou e até palmas vieram pra gente no final. Sim, bateram palmas. Ainda emocionada com a nossa grande apresentação, a dona nos pagou uma dose de bebida, pra completar tudo. Uma caipirinha, pelo que me lembro. Um dia emocionante.

Como eu disse, merecia uma estátua. Nada mais justo.

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