O segredo de Pink Floyd

Ele está chegando, Roger Waters está voltando ao Brasil. Falta pouco para que, o mais próximo que temos de Pink Floyd na atualidade, retorne aos palcos tupiniquins; depois de muita especulação, demora, remarcação de shows e de esperar naquele maldito site para comprar um ingresso, agora está próximo de verdade. E retornar em grande estilo, com o show do The Wall (alias, fiz uma crítica do filme aqui, leiam!) e todos seus equipamentos juntos, com muro e tudo, completíssimo.

Recentemente, não só pelo show em si, mas em várias mídias em geral, rolou meio que um “revivalPink Floydiano. Principalmente com o relançamento remansterizado de toda a carreira deles, assim como uns boxes extras que, embora caríssimos, ainda pretendo comprar. Voltaram a passar clipes, tocar na rádio e ser pauta de conversa. Aliado a isso, com o show, Pink Floyd voltou a ser assunto de debate.

Mas, o sucesso de Pink Floyd não é de hoje. Também pudera, o que a banda realizou de importante foi feito anos atrás, há muito tempo, e o que assistimos atualmente é uma mera consequência disto. Desde o seu começo atribulado, as constantes brigas, até o seu auge e fim, sempre envolvidos em grandes álbuns, algumas polêmicas e grande repercussão.

Iniciada em Cambridge, com a formação não-clássica, contando com Syd Barrett, Roger Waters, Richard Wright e Nick Mason, conhecidos no curso de arquitetura da universidade. Devido ao meio acadêmico, à elite mais “politizada” da época, a banda começou a fazer relativo sucesso no meio underground, principalmente pela sua música pouco convencional, utilizando de letras bizarras, recheadas de mistura de rock com sonoridades folk, principalmente, sobre uma construção musical e apresentação não convencional. Tão pouco convencional, que ficaram conhecidos os improvisos feitos nos shows ao vivo da época, com grandes solos e brincadeiras com luzes e fumaça, no palco, aonde tentavam fazer o espectador “imergir” na música.

Foi neste período que a banda gravou músicas como Arnold Layne e See Emily Play, assim como o primeiro e elogiadíssimo álbum da banda, conhecido como The Piper at the Gates of Dawn:

Neste mesmo período, logo após o sucesso do primeiro álbum, que a banda enfrentou seu primeiro problema. Os devaneios de Syd Barrett começaram a ser uma constante, o que prejudicava negativamente o desenvolvimento artístico dos projetos. Barrett, então, foi aos poucos sendo deixado de lado, substituído pelo então David Gilmour, que como conta o livro Dark Side of the Moon: os bastidores da obra-prima, só entrou na banda porque “queria ser famoso e pegar umas mulheres“.

E aí, veio o problema.

Segundo o mesmo livro, foi o período mais complicado da banda. Com o afastamento de Barrett, mas ainda vivendo sob a sombra criativa do mesmo, os álbuns posteriores, embora aclamados atualmente, não convenciam na época. Pareciam uma forçosa competição de “poderes” para tentar igualar a mistura bizarra de Syd, mas que nenhum dos membros conseguia fazer com tanta naturalidade. Como dito, hoje, estes álbuns merecem seu lugar ao sol, mas na época, tanto A Saurceful of Secrets, quanto More, quanto Ummagumma e até Atom Heart Mother, viveram às sombras de Syd Barrett.

Atom Heart Mother, inclusive, com severas críticas por parte dos próprios membros da banda, chamando-o de “pomposo“, de “uma boa obra para nunca ouvir” e coisas do gênero. Foi só com a gravação de Meddle que a coisa começou a tomar novos ares. Foi em Meddle, também, a gravação da melhor música da história (é minha opinião, eu sei, mas é a melhor opinião do mundo): Echoes.

Aí a coisa decolou. Pink Floyd voltou a ser conceituadíssimo, os críticos voltaram a ama-los e a “sina” Syd Barrett havia sido superada. Foi nesta época que tivemos o período mais criativo da banda, a começar pela própria Echoes, música elogiadíssima por todos e que, inclusive, ia ser o “carro chefe” do show mais artístico da história da música, o famoso Live At Pompeii, ao qual eu mesmo costumo chamar de “o melhor show da história, tocado para os mortos“:

Mas não foi só Meddle que re-alavancou a banda, mas também em outras obras, como o subestimado disco Obscured by Clouds, que, embora fugindo um pouco dos conceitos psicolédicos e conceituais atribuídos aos músicos, contava com uma sucessão de pequenos clássicos. Algumas pessoas, inclusive, afirmando que Obscured by Clouds foi a “base estrutural” para o mais admirado álbum da banda: Dark Side of the Moon.

E foi em Dark Side of the Moon que a banda alcançou seu maior sucesso, a obra-prima a que toda banda tenta alcançar. Puramente conceitual, seguindo uma linha de raciocínio ao longo de todas as músicas, o álbum não parece apenas um punhado de boas canções separadas, mas sim uma grande e única obra, quase uma sinfonia. Não só pela beleza e habilidade técnica nele contido, há outros fatores que o imortalizaram, como o engenheiro de som Alan Parson, responsável por uma gravação quadrifônica invejável, assim como a “lenda” atribuída ao projeto e o filme do Mágico de Oz, conhecida como Dark Side of the Rainbow, ou Dark Side of the Oz:

Imortalizado, como conta no livro citado acima, é o tipo de obra que a banda se pergunta depois: e agora, o que a gente faz da vida? Roger Waters, inclusive, cita que entendeu a importância do álbum quando chegou com uma cópia para sua ex-mulher, que ouviu todo e, depois, ficou sentada e chorando.

E foi aí que a coisa disparou de vez e degringolou ao mesmo tempo. Seguidos do sucesso de Dark Side of the Moon, gravaram os também aclamados Wish You Were Here (em homenagem à Syd), Animals e The Wall, imortalizado com o famoso show que retorna ao Brasil em breve, mas também com o filme de Alan Parker:

Foi neste período que começaram as brigas de ego entre David Gilmour e Roger Waters, que culminaram no fim da banda e muitas polêmicas, como o álbum The Final Cut, gravado por todos mas assinado como “uma obra de Roger Waters“, ou as brigas judiciais para a gravação do então álbum Division Bell, já sem Roger Waters na banda. Brigas essas, que levaram a verdadeiras lendas, como o dia em que Roger Waters anunciou que deixaria a banda dizendo “Vocês não vão ser nada sem mim, seus merdas!“, ou o famoso show em Earls Court, aonde Waters entrou com uma camisa com um 1 gigante, fazendo alusão a ser o primeiro, o mais importante:

Pouco antes da morte de Richard Wright, a banda se reuniu para um show beneficente do Live Aid, mas ainda com muitas diferenças e brigas. Foi só recentemente que as picuinhas entre Gilmour e Waters cessaram e que, inclusive, culminaram em um dos momentos mais épicos da música, com a participação de David em uma das apresentações de Waters ao vivo, sem ninguém do público saber:

E aí, depois desse resumão todo sobre a história da banda e de suas músicas, você me pergunta:

– Pra que essa merda toda?

Ora, meus caros, porque Pink Floyd é a maior banda da história. Não, não são aqueles com nomes de animal, nem nenhuma banda moderna, nem aquele que se auto-intitula Deus, nem porra nenhuma. Pink Floyd e ponto. Acabou a discussão. E era neste ponto que eu queria chegar.

O resumo, mesmo tedioso para alguns, era para exemplificar a importância não só musical, mas totalmente artística que Pink Floyd representou. Começamos exclusivamente pela banda:

Desde o seu período puramente psicodélico, encabeçado por Syd Barrett, não há nenhum (mas nenhum MESMO) álbum que não mereça destaque. Nem mesmo os álbuns que outrora foram injustamente tidos como “abaixo da média“, ou que “viviam à sombra de Syd“, tudo o que a banda fez foi estritamente poético e revolucionário, cada qual com uma série de clássicos musicais.

Primeiramente com a fase de Syd, aonde tivemos um álbum com um rock mais cru, misturando letras absurdamente bizarras e outros instrumentos mais bizarros ainda, gaitas, sintetizadores e sonoridades ligadas à musica local, o projeto inteiro revolucionou a música, de forma a criar principalmente, um novo conceito sobre o rock. Não era apenas guitarra, baixo e bateria, com músicas de amor, mulheres e afins. Era a nova versão do rock, ou como um comentário de Youtube disse, “a música abstrata“, sem estritamente seguir nada, nem compassos, nem tempo musical, nem ritmo. Como é o caso de uma boa passagem de Astronomy Domine, aonde o que contava era o puro experimentalismo, tentando retratar os sons do espaço:

Mesmo a fase pós-Syd, com todos os problemas, podemos ver sob os olhos (e ouvidos) de muita coerência musical, muito trabalho e projetos muito bem feitos, salvo todas as dificuldades do momento. O próprio caso de Atom Heart Mother, tão criticado pela própria banda, mas que mostra a dedicação total dos músicos, inspirados pelo rock, mas dispostos a criar algo nunca imaginado. Variando de uma sinfonia de 21 minutos, com longos solos e momentos de puro improviso instrumental e vocal, passando por um rock bucólico e simples, como o caso de Fat Old Sun, a ideia da banda sempre foi, tentar dar uma forma “visual” a sua sonoridade, aonde ambas se completam. É muito fácil, alias, na própria Fat Old Sun, imaginar o cenário do campo aonde a música se refere, justamente pela habilidade que os artistas conseguiam de transpor a ideia estritamente musical, e sim, compondo toda uma contextualização de obra.

E isto ficou ainda mais óbvio nos momentos de maior sucesso, principalmente em The Wall e Dark Side of the Moon, aonde ambos os álbuns, conceituais, o tema discutido muitas vezes fica claro sem precisar ser dito. As aflições da vida, dinheiro, desespero e guerra em Dark Side of the Moon, assim como a misantropia e a loucura, em The Wall, elevadas por um personagem completamente psicótico, são perfeitamente entendidas ao longo das músicas, sem que seja necessário se explicar nada. E por isso que a ex-mulher de Waters chorou.

E como fizeram isso? Qual o mérito deles? Todos.

A grande maestria da banda está na qualidade musical dos quatro membros (e de Syd Berrett). Da importância de Wright, com seus estudos ainda quando criança de música clássica, que definiram muitas das melodias de Pink Floyd e dos teclados e sintetizadores usados, passando a exatidão de Waters, músico-matemático que priorizava, principalmente, o treinamento técnico para cobrir sua falta de habilidade. Não só isso, a própria dedicação de Waters a ser um grande letrista, assim como o grande guitarrista que foi Gilmour, misturando sua técnica, feeling, assim como seus aprendizados em blues, funk e rock, tentando agregar tudo à sua música. Até o subestimado Mason teve sua participação crucial, sendo um baterista muito diferente da média, principalmente, valorizando o ritmo das músicas através dos pratos, ao invés do bumbo.

Não é rock, mas também não é puramente experimentalismo. É Pink Floyd.

Mas não só musicalmente, como dito, a banda foi importante para o mundo em muitos outros aspectos. Eram artistas completos em todos os sentidos. Extrapolaram o conceito de apenas “produzir áudio” e passaram a outras esferas muito mais elaboradas. Foram os responsáveis por espetáculos grandiosos e memoráveis. Foram responsáveis por remodelar a estrutura de shows, não se dedicando apenas a sonoridade em si.

O próprio Live At Pompeii, como obra artística, foi o responsável por um dos momentos mais épicos da história. Mas também o The Wall, que culminou em uma série de shows/espetáculos aonde a ideia de ter espectadores presentes não era estritamente para ouvir a música, mas “entrar” dentro do espetáculo, ampliando a ideia para os outros sentidos. O espectador estava envolvido no projeto, não era um mero comprador que ia lá, pagava o cd e acabou. Ele tinha o direito de “experimentar” a obra na maioria das mídias que pudesse alcançar. E foram mais longe quando gravaram filmes, fizeram livros, ampliando a fronteira artística ainda mais. Não a toa o lançamento recente de seus boxes se faz com um nome muito sugestivo: immersion boxset. A ideia é essa mesmo, entrar de cabeça nos seus projetos, “mergulhar” na música.

Não se trata de “uma banda de rock“, mas de artistas completos, com grandes obras aonde se propuseram a participar. Não se trata de música, exclusivamente, mas de arte. Não apenas da obra como resultado, mas do conceito criado. Não apenas da diversão, ou propriamente do empirismo, mas de muita dedicação e técnica. A música, que depois de Pink Floyd, não era exclusivamente sonora, mas visual, sensorial e inovadora.

Não nos prendamos simplesmente ao fato de ouvir, mas de entender todo o processo, todo o resultado e, por isso, obviamente, ver o álbum como Pink Floyd via, apenas um “membro” de uma série de fatores, que poderiam contar com o discurso, o espetáculo, o filme, os encartes, os livros, tudo que se apegasse a ideia do conceito do projeto. Como é o caso de Animals, com o discurso sobre os diferentes tipos de personalidade, mas que teve a produção do encarte em uma série de “eventos” envolvendo o balão-porco, que era solto perto de locais com concentração de pessoas inseridas no esteriótipo do álbum, como o caso de fábricas, indústrias etc.

Pink Floyd, que não foi só uma banda, mas revolucionou a música. Estamos aqui, agora, esperando o show no Brasil. Não é qualquer show, como eu disse, se tratando da banda em questão, será um momento único e inimaginável. Mais uma vez, com o intuito de ampliar as fronteiras da música para os outros sentidos, não apenas os ouvidos, a imersão ao alcance dos fãs brasileiros, finalmente. Finalmente, é isso que esperamos, porque Pink Floyd é Pink Floyd. Novamente, fazendo história.

Boa Noite, bom St. Patrick’s Day e sigam-me!

Editado no dia 21/05/2012, às 21h59min: não esqueçam de ver, também, a minha crítica sobre um dos maiores shows do Pink Floydaqui!

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5 pensamentos sobre “O segredo de Pink Floyd

  1. Simplesmente obrigada, por esta curta, mas intensa abordagem sobre esta poderosa banda os Pink Floyd. Fui tremendamente influenciada a amar essa banda por uma das minhas irmãs. E simplesmente amo….

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