Lapadas do Povo – Tuim

Ta aí um dos lugares mais clássicos de Porto Alegre, também localizado (atualmente) no Centro da cidade (como o Comilão), o coração e reduto da boemia porto-alegrense  lugar dos mais antigos e melhores botecos da capital gaúcha.

Bar & Choperia Tuim, como nos mostra a placa, em pé ali, firme e forte desde 1941, o ano da grande enchente gaúcha, que abalou a capital e mudou o cenário da cidade até hoje. O bar é tão tradicional, cumpre tão bem os elementos clássicos que eu descrevi no segundo post, que eu acho que ele merece uma música para “personificar” a coisa da melhor maneira possível.

Ta aí uma canção de Noel Rosa, interpretada por Chico Buarque que, sabiamente, capta a essência do boteco de raiz, o bar clássico. Salve o poeta popular, sempre compreendendo a cidade:

Não faço ideia se o Tuim chega a ser o bar mais antigo de Porto Alegre, porque a disputa é acirrada, mas que é o mais clássico, é. Alguns fatores contribuem com isso. O primeiro, por ficar no Centro (anteriormente, ficava em outro ponto, tão tradicional como este). O segundo, por pouco mudar a sua essência em tantos anos, com algumas reformas pontuais, manteve a “alma” do bar do mesmo jeito. Alguns outros botecos clássicos antigos, literalmente, vieram abaixo e surgiram de novo, com uma cara completamente nova e remodelada, para outro tipo de público e clientes que não mais pertencem à realidade do bar original. O terceiro motivo é o próprio público, como se pode ver na foto, formado por tiozões e outas figuras que já viveram muito e muito, mas continuam ali frequentando o mesmo lugar há anos. Isso o credencia – e muito!

Eu tenho uma teoria de que, conforme você vai ficando mais velho, mais crítico você fica, porque lhe falta menos tempo para viver; logo, você sempre quer tudo do bom e do melhor. E é por isso que bares frequentados por tiozões, geralmente, são melhores que a maioria. Os caras manjam, já viveram muito, sabem o que escolher. E o Tuim prova isso com classe. Saber escolher um bar – para sempre – é uma tarefa difícil. Esses caras aí, desde 1941, escolheram o seu boteco e estão lá, até hoje, no mesmo lugar.

E não é a toa, o Tuim reúne duas coisas essenciais à um boteco bom: chopp no ponto e comida (muito) boa. O chopp, Brahma gelado, não importa o calor, o frio ou a intempere climática, vem sempre na medida da sede, cobrindo bem o paladar com aquele nobre e leve líquido dourado; ainda mais no Centro da cidade, aquela correria toda, um bom bar com uma boa bebida é uma pedida certeira para fugir da manada de pessoas que cruza as ruas. Mas a principal obra da casa, por incrível que pareça, não é o chopp. Fica a cargo do famoso sanduíche de anchovas que, inclusive, está no site – tosco, muito clássico, cômico, desatualizado, diga-se de passagem – dos caras (www.barchopptuim.kit.net).

Se eu pudesse lhe dar um conselho na vida, com certeza não seria para usar filtro solar, porque isso é só pro Bial ficar famoso. Certamente eu diria a você:

COMA O SANDUÍCHE DE ANCHOVAS

Muito melhor o meu conselho, não? Feito isso, você realmente poderá chamar sua vida de vida. Sem provar o sanduíche de anchovas, você não viveu, mas sobreviveu, foi mais um na multidão, um qualquer levado pela maré. Isso que eu nem sou muito chegado de peixe com pão, mas este aí merece toda estimação. É a típica comida que só um mestre do boteco consegue fazer. Obviamente, teria de vir do botequim mais clássico de Porto Alegre, servido com mostarda e bebida.

O Tuim, além de todas suas “vantagens tradicionais”, ainda possuí uma vista muito bacana, ficando numa subida da General Câmara, aonde desemboca a Praça da Matriz, o Theatro São Pedro e aquela região toda, que é muito bonita. Deem uma olhada na foto, prestem atenção na rua e nos prédios em questão e respondam: que cara de cidade, eim?

Ta aí uma coisa que eu esqueci de adicionar na lista de fatores importantes pra um boteco, mas que olhando o Tuim, me veio à cabeça: boteco de verdade fica no meio da cidade. Nada de sede campestre, de bairro descolado, de público cult e nem porra nenhuma. Boteco que é boteco preza pela cidade, aquele bairro povão, que tem entregador de gás passando ao fundo, um trânsito ridículo cheio de motoboys trancando tudo, uns pedreiros fazendo uma obra por perto e aquele mendigo conhecido, que todo mundo dá uma moeda. Feito isso, aquele cheirinho de poluição, de fumaça em volta do bar, completando com o cheiro de bebida e de cigarro, deixa o ambiente muito mais legal.

Posso até postar outra música, desta vez de João Bosco (De frente para o crime), para entenderem a que ponto eu quero chegar com a colocação aí de cima. Concordarão comigo:

Mas, voltando ao Tuim o bar da vez – há outro ponto a comentar: o seu deck inaugurado em 2010. Um grande ponto positivo deles, que souberam utilizar sabiamente o fato de estarem localizados em uma rua sem saída para colocar umas mesas ali, fazer um elevado e aproveitar o céu aberto para atrair mais gente.

Na foto acima, o bar está fechado ainda. Mas, em dias de movimento, ele fica completamente lotado. Os mais antigos, clientes fiéis, ainda preferem lá dentro. Mas, os mais novos, gostam de ir pra rua e se amontoar a céu aberto, como aí:

Classudo. Para completar toda mística em torno deste querido bar, há uma história muito boa envolvendo o estabelecimento.

Antes da reforma toda, ainda em 2006, o Tuim foi o responsável por um dos momentos mais fight the power da Capital. Quando começaram estas frescuradas das leis anti-fumo e afins, tentando criar uma medida paliativa babaca contra o cigarro, o pessoal do Tuim pendurou uma famosa placa na porta, que deu um rolo gigantesco para os donos do bar:

Pelo livre direito de cada um se matar como acha melhor, Tuim e sua mítica placa escrito em letras garrafais “bar EXCLUSIVO para fumantes“. Diz a lenda que os malas da Smic entraram, tiraram a placa e ficaram chiando desproporcionalmente. Aí vieram os clientes (ao pé da letra, fiéis), cagaram os malas da Smic de porrada e pegaram a placa de volta, para colocar no seu devido lugar. Foi então que chamaram a PM (como mostra na foto), deu o maior rolo e, no final, a placa teve de ser recolhida. Sim, você pode comprar cigarro mas não pode fumar aonde quiser, nem se o dono concordar com isso. Grande governo e sua super medida genial. Um bar clássico, como era de se esperar, tinha que lutar pelos nossos direitos de ter câncer em paz.

Não a toa, depois de tantos anos, histórias e referências, recebeu o título (por mim concedido, que honra) como o botequim número 1 da capital. Bota respeito, eim! Muito merecido.

Nome: Bar & Choperia Tuim

Endereço*: Rua General Câmara, 333 – Centro

Média de preço: 20 reais, em média, com chopps (veja bem, no plural) e um petisco.

Bom dia e sigam-me!

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