Os 5 blocos de Carnaval que eu fui

Como não era novidade e o post anterior já dizia, fui passar o Carnaval – a grande celebração à carne – no Rio de Janeiro.

É claro que eu passei mal, bruxaria pura, e fiquei todos os dias do carnem levare vergonhosamente doente, me sentindo mal pra caralho, sem poder encher a cara e/ou comer que nem um bicho faminto; qualquer petisco ou cervejinha e parecia que tinham me acertado um murro no estômago. Como não restou a mim fazer um belo levantamento das melhores bebidas da grande festa – como as caipirinhas de barraca – e tampouco dos melhores rangos gordos, restou apenas a doce missão de fazer uma lista sobre os blocos de rua que ocorreram na Cidade Maravilhosa.

Como ocorreram muitos simultaneamente, alguns inclusive quando eu nem estava lá, obviamente eu tive que selecionar os que eu queria presenciar, justamente para poder criar uma dinâmica e estar no momento certo na hora certa, pra não cagar no patê. Casualmente, acabei indo a 5 blocos mesmo. Isto me poupou tempo de escolher “os melhores” que eu fui, porque obviamente, fui só nos melhores. Sim, eu tenho bom gosto e isso me poupa horas e paciência. Ao invés de visitar 25 blocos pra escolher 5, cravei no ponto certo e fiz uma boa escolha, sem me arrepender do cronograma.

Então, sigam-me os bons e vejam:

Bloco das Carmelitas

Este foi o único “bloco clássico”, daqueles mais antigos, que eu fui. Estes blocos clássicos, embora tradicionais, acabam atraindo um número absurdamente gigante de pessoas. Fica uma situação insuportável, foda pra tudo, comer, andar, beber, mijar; aí o cara acaba nem curtindo muito a moral do Carnaval de Rua, fica só espremido ali no meio em um sol escaldante. O Carmelitas, embora cheio, ao menos compensa pelo visual, por ficar lá em Santa Teresa, um dos bairros mais bonitos do mundo, como mostra o vídeo abaixo.

Como conta a história do bloco, diz que uma a freira do Convento de Santa Teresa – que vivia confinada – fugiu para pular o Carnaval e se confundiu no meio da festa, quando a banda de um bloco passava; este bloco, acabou adotando o nome da vertente religiosa da moça fujona depois, as famosas Carmelitas. Por isso que os foliões da parada utilizam véus religiosos, roupas de padres, freiras e afins. Como é de praxe, o pessoal passa duas vezes pela rua, uma no início do Carnaval e a outra na Terça-Feira, antes da Quarta de Cinzas, quando seria a data aonde a suposta freira da “lenda” retornou ao convento.

Pintura que retrata o convento.

Foi, sem dúvidas, o bloco mais lotado que eu fui. Ainda mais com aquelas ruazinhas apertadas de Santa Teresa, o clima estava tenso; isso sem contar que todo trajeto de ida estava complicado, porque as ruas estavam fechadas para o desfile das escolas de acesso da Sapucaí. Aliava isso a bruxaria jogada em mim, que me fez ficar mal a semana toda, foi foda demais. E o dia estava tão quente, mas tão quente, que tinha até umas tiazonas jogando água de mangueira na gurizada, pelas janelas mesmo, pra aliviar um pouco o calor.

Uma experiência sui generis mas bacana, mesmo lotado. Como disse, o visual compensava, porque Santa Teresa é muito bonito. Valeu também pelo melhor grito de Carnaval que eu ouvi este ano, fazendo alusão aquela escada monstra para acessar o bairro:

Tô subindo ainda, Santa Teresa é melhor do que Olinda!

Pra terminar, segue uma foto classuda da Lapa, tirada depois do bloco, quando já tinha descido tudo. Vale a movimentação toda, não vale?

Cordão do Boitatá

http://www.cordaodoboitata.com.br/

Este eu conheci desta vez e gostei. O Bloco estava bombando, sim (tanto quanto o Carmelitas), mas a “divisão” que eles fizeram deu uma boa cadência à coisa e meio que tornou tudo mais fácil.

A banda sai do meio da rua, dá uma voltinha pelas principais, ali perto da Praça XV e depois vai pra um palcão, fazer um show aonde antes já está rolando uns DJs bacanas que ficam tocando de antecedência, fazendo um aquece divertido. Isso dá um clima muito legal para o bloco, que se divide em vários pontos, ora na escadaria da Assembleia Legislativa, ora na Praça XV sobre o palco montado.

O Centro carioca realmente para com os caras, tudo para ver a festa. Esta coisa da movimentação também torna tudo melhor porque dinamiza o percurso; você pode ficar na muvuca, pode ir curtir um show perto do palco, pode dar uma caminhada pelo Centro, pode fazer o que quiser…e aonde você for, sempre vai ter folia.

Nota máxima para os DJs, também, que faziam uma mistura de samba e música eletrônica muito bacana, com uns ensaios muito bem feitos e bem no clima da galera. Outro ponto alto, com certeza, foi a organização da parada, que na minha singela opinião, foi uma das melhores de todos os blocos. Tudo no capricho, os ambulantes na rua, os banheiros, um baita povão circulando e tudo funcionando direitinho, na maior harmonia, sem maiores problemas. Méritos do bloco, que soube lidar bem com a quantidade de pessoas esperadas e criou uma maneira de todo mundo ficar bem.

Valeu a pena acordar às oito da manhã e ir parar no Centro, em outro dia de sol do caralho, passando mal com a bruxaria e tudo mais.

Bloco do Maracangalha

Este dia eu ia pra Ipanema, porque minha prima falou que tinha um bloco da hora lá perto da praia e tal, mas acabou que fomos ali pro Humaitá, porque ela estava com os filhos, em um bloco de bairro atrás da Cobal, tocado pela banda infantil do Santa Marta. A princípio parecia furada, a coisa atrasou, não tinha muita gente, mas diz o ditado que o peixe morre pela boca, né?

Que situação, eim? E o pior que o bloco é bom, queimei bonito a minha língua. O som feito pelas crianças do Santa Marta ficou bem ensaiado, muito bem executado e, embora o bloco seja pequeno, os caras souberam puxar o público e criar um clima animado e bem bacana.

O mais interessante é que, por ser um bloco pequeno, a prefeitura (novamente) tentou impedir que eles transitassem pela rua, o que obviamente não os desanimou e nem impediu que a festa acontecesse, porque os caras foram igual, sobre um enredo de “é proibido proibir“, ironizando com classe a situação toda. Só por essa atitude, já merece o Selo Fight the Power de Qualidade:

A festa toda proporcionada pelos caras estava bem feita, tudo organizado, boa folia, sonzinho bom, banda ensaiada, pessoal animado, fantasiado e curtindo a brincadeira, tudo nos conformes. Mas o que realmente roubou a cena do bloco foi uma coisa tão estranha que ninguém, nem mesmo os organizadores, esperavam:

O SENHOR CADEIRA.

Sim, este cara passou o bloco inteiro sozinho e sem amigos, vestido assim, de camisa social e bermuda, com uma CADEIRA DE ESCRITÓRIO na cabeça. Fez todo o percurso, no meio da muvuca, suando que nem um condenado e tocando umas musiquinhas de video-game naquele alto-falante na mão dele. Sério, se existisse um troféu para sujeito mais estranho do Carnaval, a figura aí de cima ganhava a competição com sobra. Grande Senhor Cadeira!

Sargento Pimenta

Ta aí um bloco novo que vem bombando muito. Surgiu em 2011 e este ano já levou 60 mil camaradas pras ruas, lá no aterro do Flamengo. A grande sacada? Reinterpretar as músicas de Beatles com samba. Muito boa a ideia, muito bom o som e a disposição dos caras também, que visivelmente se dedicam pra fazer uma coisa bem feita. Felizmente, descolei um vídeo da parada que dá para postar aqui, para vocês terem uma ideia de como ficou o projeto e o som apresentado:

Legal, né? O mais interessante é que realmente Beatles combinou com samba de bloco, bateria e tudo mais. As versões dos caras, em sua maioria, ficaram muito bem boladas. Obladi oblada ficou muito boa e a All you need is Love puxou toda aquela massa que estava espremida sob um sol de mil graus no Aterro. Os caras manjaram muito e o povo correspondeu.

Pelo que li por aí, este ano eles tiveram problemas com a equalização do som; realmente, para quem (como eu) acompanhou do chão, tava meio foda a coisa. Neste vídeo aí não dá pra perceber, porque foi gravado BEM próximo ao carro, mas com um pouco mais de distância já não dava pra ouvir mais nada. Mas é um bloco novo, tem dois anos, muita coisa ainda é experimental. Nos próximos anos já vão corrigir isso e vai ficar muito massa. Mesmo com esse problema, vale a festa que os caras proporcionam:

Não a toa repercutiram na imprensa internacional, como mostra a reportagem. Merecido.

Vagalume, o verde

Falem o que quiserem, argumentem, esperneiem, mas o Vagalume é o melhor bloco recente do Rio de Janeiro.

Surgido ali com o pessoal do Horto Florestal, o bloco anima o Jardim Botânico faz quase dez anos. Começou pequeno, bem de bairro como o Maracangalha, percorrendo a rua Pacheco Leão. Aí cresceu, cresceu, foi pro Jardim Botânico, continuou crescendo e hoje lota – e muito – toda vez que passa, mesmo com as mudanças de horário deste ano (começou às 8h), que atrapalharam a festa porque muita gente ainda estava dormindo e chegou já com o bloco rolando, como é o meu caso.

A coisa foi tão profissional este ano que, além da bateria, o público pôde contar com um carro “abre-alas”, com um baita vagalume estampado na parada dando o ar da graça para os foliões. Não só isso, ainda teve o casal de mestre-sala e porta bandeira, em pernas de pau, levando o brasão do pessoal para as ruas. Ficou muito bem bolado e vale a pena visualizar a ideia; esta mistura de elementos tradicionais do Carnaval de rua, mas que por muito tempo ficaram restritos a Sapucaí (como o casal aí), criam um visual bacana pro bloco, trazendo nostalgicamente aqueles primeiros Carnavais, dos bailes lá de 1940 e afins.

A ideia dos caras é muito boa e funciona muito bem. Não só isso, ainda distribuíram flyers-abanadores com a letra da marchinha do ano, assim como camisetas. Tudo isso ajuda a construir uma identidade visual muito bem bolada para o bloco. De longe você já percebe o pessoal, na rua, cantando a música-tema com a camiseta deles, o que ajuda a criar uma unidade do caralho.

Aliado a isso, ainda temos a bateria que a cada ano melhora mais e mais. Para evitar o stress do trânsito, este ano, larguei ali na Lagoa e fui caminhando para o Jardim Botânico, o que é uma distância considerável. Mesmo assim, ainda ali da Lagoa, já dava pra ouvir o som da bateria no aquecimento. Consegui descolar uns vídeos para postar aqui, um do aquecimento e outro já no fim, quando o bloco já estava dispersando e a bateria já encerrada, mas que mesmo assim ainda puxava o público que estava presente:

Outro mérito é a escolha do repertório, que varia das músicas do bloco, como a deste ano, com sucessos atuais, assim como Tim Maia e sambas clássicos. Este ano, além de tudo, estiveram presentes uns sambas da Portela, da Mangueira e do Salgueiro, que caíram muito bem com o clima da parada. Pra completar, posto aqui a marchinha puxada este ano, que ficou muito boa:

O dia já raiou

Não se apagou o Vagalume

Vista a fantasia da alegria

Lança-Perfume

No meu calendário

É Terça-Feira de Carnaval

Hoje eu estou licenciado

Cada um no seu quadrado

Liberou geral

(é nós)

É Nostradamus

Aqui estamos vendo o mundo se acabar

Sassaricando

Eu levo a vida

E deixo a vida me levar

Acorda que o couro vai comer

2012 explodiu na JB

Apocalipse não, amor

Nada mudou

O fim do mundo é sacanagem

Um brinde à libertinagem

bônus: O Super Mario Bloco de Santa Teresa

Quando eu disse, naquela antiga postagem, que já tinham feito tudo sobre Mário, não era brincadeira. Retirei do site Nãosalvo um vídeo de um mini-bloco de Santa Teresa, justamente feito para homenagear o encanador mais famoso do mundo. Saca só que som bacana e que ideia genial:

Bom, galerinha. Por hoje é só. Nas próximas férias, quando tiverem pensando “aonde eu vou no Carnaval?“, juntem uma graninha e se mandem para o Rio de Janeiro, para curtir o Carnaval de rua, que realmente é muito bom.

Passou muito anos em baixa, principalmente nos anos de repressão e Ditadura. Muitas políticas esdrúxulas quase puseram fim ao Carnaval carioca (visto como libertinagem), que por muito tempo ficou limitado aos gringos ricos que iam na Sapucaí e só.

Mas, de uns 10 anos para cá, o Carnaval de rua ressurgiu magicamente, fazendo uma grande representação saudosista aos nostálgicos Carnavais de décadas passadas, com marchinhas, fantasias e tudo mais. A coisa cresce tanto nos últimos anos e ficou tão organizada (salvo pequenos problemas óbvios), que o famoso Carnaval de Salvador, até então no Guinness como o maior do mundo, acabou perdendo seu espaço para os blocos de rua, que hoje dormem com este posto.

É isso. Sigam-me os bons e até a próxima!

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