Sem lamparinas, nós não teríamos luz!

Porque os trabalhos braçais são desconsiderados, na medida que os trabalhos intelectuais são endeusados?

Juro que eu não entendo. Isto é uma discussão muito complexa, gerando uma porrada de debates das mais diferentes formas, inclusive na arte. Quem aqui já assistiu Clube da Luta sabe do que eu me refiro, pois o filme trata sobre a relação social dos indivíduos que “vivem” pelo trabalho (workaholics) e das formas que eles podem se “libertar” disso, vendo a própria vida através de um conceito estranho sobre auto-destruição hedonista.

Na minha faculdade, uma vez a professora abordou o tema, traçando uma óptica dualista, quase como uma gangorra entre trabalho intelectual x trabalho braçal. No argumento dela, o trabalho intelectual era mais considerado (e consequentemente mais remunerado) porque advinha de uma série de conhecimentos específicos do profissional, que dedicava sua vida e seus estudos a estabelecer um grau de intelecto exclusivo para determinado tema. Em contrapartida, o trabalho braçal não precisava de nada, apenas de mero esforço físico, de modo que qualquer um pudesse fazer. Não deixa de ser verdade, mas ainda assim é uma análise tosca e rasa.

Isto, principalmente, por dois pontos (que chegam em uma conclusão única):

1 – Muito da suposta “capacidade intelectual” do indivíduo ligado a trabalhos intelectuais não está especificamente nos méritos de raciocínio do mesmo, mas sim das condições do seu meio…ou, grosso modo, ter grana pra pagar uma porrada de cursos que o dignificam como “qualificado”. Além disso, a “capacidade intelectual” ligada a 99% dos supostos trabalhos, nada mais é do que um esforço de repetição massivo, só que metido a besta, glorificado como algo acima daquilo que realmente deveria ser: produção; seja produção de conteúdo, serviço, produtos, o que for. Tudo produção. Como exemplo, podemos usar o caso de representantes comerciais e suas táticas de vendas. A sua glória não está no fato do sujeito possuir um raciocínio apurado, um senso crítico e/ou de percepção diferenciado da maioria, mas sim o fato do cara estar disposto a repetir a exaustão uma série de exercícios e conhecimentos que alguém já bolou. Uma mera reprodução. Desta forma, a visão de “trabalho intelectual” cai por terra, visto sobre um ângulo de que, da mesma forma, trata-se de um esforço “físico” mental, não de produção intelectual própria. Um trabalho braçal da cabeça, digamos assim.

2 – O segundo ponto a ser debatido é sobre a ideia de que “qualquer um faz trabalho braçal“, o que além de ser puro preconceito, é ingenuo. Calculemos a carga-horária de um pedreiro médio, que trabalha cerca de dez horas por dia, no sol, carregando material pesado grande parte do expediente, muitas vezes fora das condições de alimentação e vestuário adequadas. Que ser humano faria isso? Chiquinho Scarpa faria? Alguém com limitações físicas ou com pouca força faria? Uma Luana Piovanni da vida aguentaria uma carga dessas por 20 anos de trabalho? Logo, nem todo mundo consegue realizar. A doce ilusão de que o trabalho braçal é pra qualquer um, é mera besteira.

E por que precisamos analisar estes dois pontos em específico? Porque somando-os, temos uma das mais proféticas passagens do cinema, dita pelo nosso amigo Judd Nelson (John Bender), em Clube dos Cinco. O nerd (Brian Johnson) está argumentando sobre o fato de que ficou de castigo por ter pego recuperação em uma aula de Artes, o que era injusto, porque Artes era uma cadeira inútil frente a Física, que ele ia bem. Então ele comenta que tirou zero ao fazer uma lamparina na aula de Artes e que saber fazer lamparinas era completamente inútil. John Bender, então, vira pra ele e diz: sem lamparinas, nós não teríamos luz!

A resposta é simplista, mas exata; qual o sentido de “sem lamparinas, nós não teríamos luz“? A simplicidade está no argumento: sem trabalhos braçais, nós não teríamos sociedade. Por que os trabalhos intelectuais são tão endeusados, como exemplifica Brian Johnson no filme? Em lugares como a Inglaterra, aliás, tem neguinho que prefere receber menos e trabalhar em um escritório a receber mais e trabalhar carregando sacos de cimento. O que é ridículo e burro.

De fato, para que QUALQUER sociedade funcione, precisamos que a “gangorra” dos trabalhos fique no meio, de forma que os trabalhos braçais sejam proporcionais aos intelectuais. Precisamos de gente para pensar E gente para produzir. E, desta forma, volto a perguntar: porque os trabalhos braçais são ridicularizados e os trabalhos intelectuais romantizados? Aproveito e levanto outra dúvida: o que um ser humano efetivamente tira de bom do seu trabalho? Vejo muita gente argumentando sobre o fato de “estudar, estudar e estudar” para ser bem sucedido, de “aprender” para ter um cargo de respeito, mas de que forma este aprendizado lhe acrescenta algo? Analiso isto, principalmente através de workaholics, dedicados a esmerilhar empresas e seus mínimos detalhes, dedicação máxima e muito estudo para…o bem da própria empresa!

Vejamos como exemplo um gerente comercial de uma empresa de lavadora de roupas, que vive para vender lavadoras de roupas, sabe tudo sobre o mercado de lavadoras de roupas, sobre suas concorrentes, sobre a história do produto, sobre seus funcionamentos, sobre novas tecnologias, sobre botões e acessórios. O cara é o mestre das lavadoras de roupas, estudou a vida para isso, dedicou tempo, livros, descansos, férias, muito esforço. O único no mundo que sabe tanto de lavadoras de roupas é ele mesmo. Mas e daí? O que isso acrescenta intelectualmente na vida do indivíduo? “Ah, ele tem um bom emprego, um bom cargo“…sim, ninguém discorda disso. O que não anula o meu argumento de que, efetivamente, o fato dele entender sobre lavadoras de roupa, ou não, pouco mudará na sua vida. Desta forma, todo tempo gasto aprendendo milhões de coisas sobre isso, foram tempos gastos para a empresa das lavadoras de roupa e não para ele mesmo, como forma de investimento pessoal.

GRANDE MERDA, EIM.

Sim, em letras garrafais. Grande merda mesmo, parabéns por saber tudo sobre nada. Mudou o mundo das lavadoras de roupa, o planeta é um lugar mais seguro e cheio de vida. Tirando a ironia, depois de tantas palavras, o ponto que eu quero chegar é apenas um: no fundo, todos trabalhos são braçais.

E quem é o mais inteligente disto tudo? O pedreiro, o lixeiro, o eletricista, o fulaninho que faz um trabalho COMPLETAMENTE E RECONHECIDAMENTE braçal, mas acabou o expediente, vai embora e está CAGANDO pra tudo. Enquanto o sub-secretário gerencial da região norte das lavadoras de roupa vai levar uma série de relatórios pra casa, uma série de problemas, pensar no dia seguinte, o que vai fazer na reunião, o que vai vestir, comer, falar, o pedreiro sai do trabalho, vai tomar cachaça, come um pastel, dorme e acorda e não está nem aí para o serviço depois que sai dele. E além disso, pode trabalhar de Havainas o dia todo.

E é aí que mora a injustiça.

Os melhores trabalhos são mal pagos, os trabalhos ridículos são bem pagos. Não porque “todo mundo pode fazer” os trabalhos mal pagos, o que é uma tremenda mentira, mas porque simplesmente criaram um status babaca para isso, “hierarquizando” a “zona de trabalho”, de forma a se acreditar que, se você não tem um carro importado, um escritório e não usa terno, seu emprego não merece receber bem. Você é um mero coitado no meio da multidão, fazendo um trabalho que qualquer outro poderia fazer.

Aham, vai nessa.

nota: entenda-se por trabalho braçal todo aquele que demande mais esforço físico do que que mental, como pedreiros, peões, lixeiros, garçons, etc.

Já, por trabalho intelectual, entenda-se todo tipo de serviço que gere mais uso da função mental do que física, como advogados, setores comerciais, investidores, empresários etc.

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3 pensamentos sobre “Sem lamparinas, nós não teríamos luz!

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