As melhores releituras de Alice

Sou grande fã das duas obras de Lewis Caroll, Alice no País das Maravilhas e Alice através do Espelho.

Li uma porrada de vezes o livro e acho o poema do Jaguadarte (Jabberwoccky) uma das coisas mais geniais já escritas. Lewis Caroll foi o super-gênio da escrita onírica, criando com uma perspicácia ímpar o universo dos sonhos e, além de tudo, soube interpretar muito bem as condições de época – Inglaterra Vitoriana – e da idade de sua personagem fictícia, Alice.

Caguei e andei praquele papo sobre ele ser apaixonado pela filha do amigo, Alice Liddell, também de 9 anos, porque isso é intriga de barraqueiro que quer aparecer diminuindo o talento dos outros; o legítimo argumentum ad hominem de gente fraca. Fato é que o cara construiu uma obra genial e inigualável.

Uma das melhores coisas sobre as obras de Alice é justamente o fato de ser sobre um mundo onírico, dando a possibilidade de algumas interpretações livres e, consequentemente, releituras deveras interessantes. Confesso que achei escrota aquela adaptação do Tim Burton, porque ele conseguiu fazer tudo justamente ao contrário e tentar dar uma “nova cara” ao que justamente era essencial. Um dos melhores fatores de Alice (original) é que foge a regra de maniqueísmos toscos, não existe bem e mal, nem heróis e vilões…é todo mundo louco e sem raciocínio lógico, como o Chapeleiro! Tim Burton conseguiu criar uma relação épica besta, “malvadizou” a rainha e fez do Chapeleiro um mártir idiota de uma causa mais idiota ainda, que nunca existiu. Outro fato bacana sobre o livro é como Caroll constrói bem a “personalidade” de uma menina de 9 anos. Tim Burton cagou bonito transformando o conto para uma adulta. Isso por si só já teria jogado a obra no lixo, mas ele ainda fez questão de meter um monte de CGs e pronto, piorou ainda mais a coisa.

Mas voltando ao que interessa, resolvi fazer uma lista de releituras que eu gosto de Alice, seja aonde rolou.

1 – American McGee’s Alice

Este é um jogo lançado em 2001 e relançado em 2011. Sim, parece retardado pensar que UM JOGO pode ser uma baita releitura de Alice, mas é uma das – se não a – melhor releitura possível.

American McGee soube mesclar muito bem os elementos do mundo onírico, da personalidade de Alice, da personalidade dos outros personagens e, ainda assim, colocar a sua versão por cima, misturando tudo num thriller psicológico muito sinistro. Resumidamente, no jogo, Alice perde os pais em um incêndio e, anos depois retorna a sonhar com Wonderland. Só que, devido a seus traumas, Wonderland não é mais um sonho, mas sim um pesadelo.

O resumo já nos norteia sobre o que esperar, mas o desenvolvimento é melhor ainda. Eu confesso que não esperava um final assombrosamente fodástico como este. No desenrolar da trama, pelo que se entende, Wonderland não virou um pesadelo por si só, mas como é uma interpretação da cabeça de Alice, projeta seus anseios e desejos no mundo criado por ela mesma. Ou seja, não existe “bom” e “mal” na Wonderland, mas sim sensações “boas” e “más” da cabeça da própria Alice. Para Wonderland voltar a ser “legal” (e não pesadelo), Alice tem de superar os seus traumas; no caso, o incêndio dos pais. Louco, não?

Pra complementar, a releitura “dark” dos personagens é muito divertida. Olhem só:

Chapeleiro Maluco.
Gato de Cheshire .

Pra complementar², a trilha sonora é composta por Chris Vrenna e é, sem dúvida, uma das melhores trilhas já compostas para o vídeo-game (e ganhará post em breve); por sinal, eu tenho o cd original desta trilha, que encontrei uma vez na Saraiva pra vender. Ouçam:

Na versão de 2011 ainda tem uns extras bacanas, como uns wallpapers e umas imagens legais.

Mesmo quem não gosta de vídeo-game, vale a pena!

2 – Malice in Wonderland

Está é uma releitura de Alice (filme) colocando toda história no subúrbio londrino, aonde os personagens são mafiosos, drogados, ladrões e afins. Alice é uma pobre boa moça perdida em um bairro enfadonho sendo guiada por um taxista maluco (coelho branco), interpretado pelo Danny Dyer.

Esta versão merece destaque, justamente porque como o game de American McGee, o diretor Simon Fellows e o escritor Jason Rothwell souberam mesclar bem as partes importantes do livro e as peculiaridades dos personagens ao universo proposto na readaptação.

É realmente genial como os personagens sem enquadram bem nos seus papéis “duplos”, sendo interpretados como personagens de uma Inglaterra Vitoriana (original), mas em um mundo contemporâneo (Malice).

Ficou muito bom e, mesmo não fugindo do clichê “história de amor”, isso não diminui o filme.

Muita gente meio que cagou pro filme por ser considerado uma obra “B”, ou algo do tipo, com atores e diretores baratos. Mas sejamos sinceros, é muito foda! E, sejamos mais sinceros ainda, Danny Dyer é o cara!

Fez este filme, Football Factory e Doghouse. O cara sabe o que faz.

3 – Disney’s Alice

Aquele famoso desenho da Disney, que todas as pessoas do universo já viram. Clássico absoluto.

O filme foi feito em 1951 e (tô nem aí pra opinião alheia) ainda assim continua sendo o melhor de toda filmografia do estúdio Disney, que não é pouca coisa. A obra é genial e, na cabeça da maioria, pautou a imagem dos personagens do livro. É difícil de desassociar a Alice do desenho do que imaginamos sendo como a “original”, digamos assim. O mesmo vale para o coelho branco, para o Chapeleiro etc.etc.etc.

alice-and-rabbit

Disney e seus amigos “criaram”, praticamente, o conceito visual da obra, muito embora o livro original já contasse com desenhos muito bacanas. Não só isso, os dois livros foram resumidos em um desenho só de maneira muito sábia. Você praticamente não percebe a “mescla” dos elementos das duas histórias, constituídas em uma única obra. Isso porque o projeto foi muito bem feito.

Eu confesso que acho umas passagens do desenho excessivamente lúgubres. Tipo a parte que a Alice se perde e fica vagando pela floresta sozinha. Aquele traço de desenho meio escuro, sombrio, com o personagem sozinho num mundo gigante é uma situação macabra demais; ainda mais quando aparece aquele maldito cachorro faxineiro e varre o único caminho. Obviamente, isso não diminuiu a obra; pelo contrário, acrescenta demais.

Palmas para Disney!

4 – Alice, de 1988

Este é locão. Vou tirar uma citação do Filmow para situar a adaptação: o animador tcheco Jan Svankmajer criou uma obra-prima, interpretando de maneira mais surreal e absurda possível o clássico conto de Lewis Caroll. Combinando técnicas de animação e atores reais, ele deu uma nova e fascinante dimensão para uma das melhores fantasias já escritas.

Bem por aí. O cara pegou o livro que é conhecido pela dinâmica nonsense e elevou a décima potência. Mistura de tudo um pouco, animação, teatro, atuação, mistério, comédia, suspense…tudo em um cenário que não se identifica se é macabro propositalmente ou de pouco orçamento. Uma releitura sui generis de uma obra sui generis só poderia acabar como Jan bolou. Tirando toda viagem de conceitos, ainda assim, é uma baita adaptação em termos de interpretação e execução, não perdendo a essência dos livros e dos personagens mas cirando um universo atípico mesmo em remakes de Alice.

Aqui tem o filme completo (áudio inglês e legenda em italiano, foi só o que encontrei)…deem uma olhada aí:

5 – Alice no País das Maravilhas, de 1915

É tida como a melhor adaptação do livro e não é a toa. Os diretores sabiam o que fazer. Fizeram uma cópia audiovisual muito fidedigna da obra de Caroll, claro, com as limitações da época, mas que não perde de modo algum sua beleza.

É, sem dúvida, a “cópia” mais integral da obra do livro, utilizando-se de todos os elementos de maneira impecável e aplicando eles no contexto de “imagem em movimento“, que é conhecido o cinema. E, fazer isso em 1915 imaginando um mundo onírico de uma criança de 9 anos não é uma tarefa fácil. Todos os méritos da obra estão no esforço daqueles que acreditaram nela, como diretores, escritores, atores etc.

Mesmo com o tempo, não perdeu seu valor. Alias, o tempo só adicionou a esta obra. Olhando atualmente, dado a idade do filme, qualidade do figurino e da filmagem, além das locações que se passam, o filme ganha um ar peculiarmente muito estranho. Se pudéssemos fazer um mash-up – e um dia eu farei – das músicas do Chris Vrenna com esta versão, certamente teríamos um thriller bizarro-cult que faria inveja a Begotten.

Catei umas imagens pra dar ideia do trabalhão que foi:

No momento é só, pessoal. Estou tentando achar mais uma versão que não me recordo o nome. Quando achar, posto aqui.

Editado dia 20/12/2011, duas horas depois (no mesmo dia, que agilidade): Promessa é dívida. Falei que ia achar e achei. A versão que me referi aí em cima é a versão Alice in Wonderland, de 1966, do diretor Jonathan Miller.

O Grande mérito desta versão está na execução do diretor, que optou por uma abordagem diferente do convencional sobre Wonderland. Nesta obra, Wonderland TODA se passa dentro de uma mansão, cada peculiaridade em um cômodo. Não só isso, o diretor estereotipou os personagens da “era vitoriana“, criando uma grande caricatura da Inglaterra no período. É uma grande releitura conceitual mas, não só isso, o cara ainda soube fazer com sua equipe uma belíssima fotografia. Temos algumas cenas muito bonitas neste filme, como a das janelas de cortinas, ou a da escadaria. Pelo que me lembro rola até uma participação de um dos caras do Monty Python.

No youtube tem o filme completo…segue:

PS:

Pra quem gosta de Alice também, sugiro dar uma olhada aqui. Eu sinceramente acho este o melhor artigo do Wikipedia. Geralmente os artigos ficam apenas como uma cópia resumida de informações que todo mundo já sabe…mas este não. Apresenta muito material “extra” que não é de domínio da grande massa, como explicação sobre os personagens e alguns “enigmas” do livro.

Fólou mis, negadis!

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