E o que Death representou?

Só reforçando o que foi dito no outro post. Nem tudo será lista no blog, embora o nome sugestivo…

Mas e afinal, o que Death representou? Alias, que merda é Death? Esta deveria ser a primeira pergunta do post, dada a triste realidade ao qual Death e o mundo da música underground está submetido. Para situar a parada e começar efetivamente o debate, é preciso conhecer Death.

Death foi uma banda de metal norte-americana, oriunda de Orlando-Flórida, fundada em 1983, encabeçada pelo mentor e principal músico da banda, conhecido como Chuck Schuldiner. Death foi a responsável pela difusão (e talvez criação) do estilo de metal conhecido como death-metal. Com muita violência e pressão sonora, temas e letras polêmicas, além de guitarras com fortes distorções, baterias com muito destaque e músicas em ritmos constantemente acelerados, o death-metal é, para muitos, o subgênero mais extremo do Metal. O Metal que, por sua vez, contém um enorme número de subgêneros de difíceis entendimentos. Há um texto antigo na internet que resume bem a parada para os leigos e situa aonde cada um quer chegar.

Mas qual foi a importância de Death, afinal? Um pouco antes desta explicação, já sabendo que Death foi uma banda, precisamos agora analisar Chuck Schuldiner, o mentor de tudo.

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Chuck teve aulas de violão clássico, ainda quando novo, mas foi ao ganhar uma guitarra que o seu talento aflorou. Com a inspiração em bandas como Slayer e Metallica, Chuck era uma mente criativa em constante trabalho. Daquele tipo de artista que não consegue viver um segundo sem tentar criar algo que possa ser utilizado na sua forma de arte. É por este fator que Chuck era conhecido pelo seu perfeccionismo musical e o que, inclusive, gerava muitos conflitos com outros músicos; não a toa grande parte de sua carreira, Chuck trabalhou apenas com músicos contratados.

A primeira banda de Chuck foi a Mantas, em 1983, que logo mudaria de nome para Death, aonde alcançaria a fama. Embora, ao que se conste para a história como Death, é importante lembrar que, basicamente, Chuck foi o “cabeça” de todo projeto. E é por isso que, ao falar da banda, é importante entender esta figura aí.

Mas o que Death representou?

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Com o breve resumo posto aí em cima, tanto de banda como de Chuck, podemos começar a entender sua importância. O Metal era – e ainda é – um estilo musical excessivamente técnico. Para aqueles que compreendem e apreciam, sabem que toda composição do Metal é embasada em muito estudo musical, principalmente sobre música erudita, para que se alcance um conceito artístico de quase-perfeição. Quando analisamos os músicos do Metal não estamos simplesmente falando de “vamos fazer um sonzinho bacana e da hora, ok“, mas estamos falando de caras que se dedicam exclusivamente a isso; são horas e horas de aprendizado para entender harmonia, melodia, escalas, ritmos, notas, variações etc.etc.etc. Mas isto tudo acarreta um grande problema: isso realmente é importante para o trabalho final? Em algum momento estudo musical é importante, mas para tocar é preciso isso?

Temos o melhor exemplo nos músicos do Blues, alguns sem saber escrever uma escala musical sequer, mas que devido a sua percepção sonora conseguiam criar arranjos muitas vezes mais bonitos do que fodões formados na Juilliard e com anos de estudo. Isso, principalmente a um conceito subjetivo chamado de feeling, um termo utilizado para tentar “definir” aqueles artistas que conseguem se expressar através do seu instrumento e/ou música sem necessariamente seguir regras estruturais. E é neste ponto que Death e Chuck entram.

Mesmo com o Metal puramente consolidado, já nos anos 80, ocorria um grande problema. O primeiro era a construção excessivamente técnica e com pouco “feeling” das bandas de metal que, salvas raras exceções, pareciam uma prolixidade nonsense de notas e escalas buscando complexidade por nada. O segundo ponto era a “anti-relação” do Metal com outros gêneros, como se fosse um mundo a parte e sem amigos. Mas Chuck conseguiu “quebrar” estes preceitos…e foi além. Conseguiu quebrar E criar um som mais pesado e diferente do que se tinha até então.

Eu costumo dizer que existem dois tipos de músicos excelentes. Aqueles que são excelentes para seu próprio estilo de música e aqueles que vão além, que são excelentes para a música como um todo. Chuck era o segundo tipo. A maior virtude dele e, consequentemente do Death, estava na sua evolução albúm a albúm, mesclando estilos, ritmos e criando um próprio conceito musical. Não a toa em muitas músicas do Death são incorporados elementos estruturais do Jazz, por exemplo, principalmente nas linhas do baixo. Não só isso, a variabilidade de temas nas letras do Death passava de mundos oníricos, filmes-B, assim como drogas, política e abordagens completamente diferentes umas das outras. Death sabia se renovar em cada nova música, quebrando algumas barreiras do estilo (Metal) e arriscando na sua sonoridade para que em cada novo trabalho notássemos sua evolução.

Mas não só musicalmente Chuck foi importante. Como dito, o Metal era um estilo que “não conversava” com outros estilos, principalmente por uma série de clichês aonde os próprios fãs do Metal se encaixavam e ainda se encaixam. Você provavelmente conhece alguém que escuta Metal e o estereótipo é 99% das vezes igual: nerd, joga RPG, cabeludo, sem vida social, se veste de preto e tem um comportamento estranho com uma adoração por coisas toscas, como Faces da Morte e Deep Web. Chuck também quebrou esta barreira. Esta entrevista dá uma baita esmiuçada sobre esta questão, mostrando principalmente que Chuck não se limitava a cumprir aos “clichês do Metal”, frustrando inclusive alguns fãs que esperavam conhecer um sujeito estranho pra caralho com gostos macabros e que se vestisse de preto. Como fala a mãe de Chuck na entrevista: os cortes de cabelo e a música não definem quem as pessoas são.

Podemos reparar um pouco disto nesta entrevista:

Sim, de um lado está o cara do Cannibal Corpse, outra banda de death-metal, com aquela pompa toda e uma camiseta digna de qualquer filme de terror, aí do outro lado aparece Chuck com uma camiseta de GATINHOS. Sim, isso mesmo…DE GATINHOS. Isso seria a heresia máxima para qualquer fã de Metal, mas Chuck cagava bonito para essas besterias. E esta era a proposta do Death; ser uma banda de metal além do metal. Uma banda de música boa.

Eu, como fã, aprecio toda carreira dos caras. Mas, em especial, existe o albúm Sound of Perseverance (aquele da foto lá em cima), que para mim é a síntese do perfeccionismo ao qual Death tentou alcançar. Passando por músicas puramente instrumentais, lembrando até clássicos violonistas mouros, como o caso de Voice of the Soul, assim como músicas que parecem ser uma discussão subjetiva-filosófica, o caso de Moment of Clarity e To Forgive the Suffer. Além disso, claro, o hino máximo do Metal conhecida como Spirit Crusher, que podemos reparar a motivação do Death em misturar estilos, como a “quebrada” do baixo oriunda do Jazz. Este, sem dúvidas, é o melhor albúm do Metal e um do melhores da música. Tudo está aqui, o feeling, a técnica, o trabalho, a criatividade, o esforço e uma conclusão musical perfeita. Um daqueles cd’s que é nota 10, que marcaram a história positivamente.

Infelizmente Chuck morreu em 2001, aos 34 anos, vítima de uma complicação graças a um tumor cerebral raríssimo. O mais bizarro desta história é que, já na época, a família de Chuck e ele mesmo não passavam por um bom momento financeiro… e os tratamentos do tumor eram caríssimos. Mesmo como o excepcional musicista que era, o fato de Death ser uma banda desconhecida para grande parte do cenário mainstream da música, fazia com que seus músicos não fossem ricos. Talvez se Chuck tocasse músicas genéricas POP e não se dedicasse exclusivamente a fazer um trabalho excepcional, poderia ter ganhado grana e tratado adequadamente seu tumor.

A mãe do cara, Jane Schuldiner, mantém o site http://www.emptywords.org/, aonde disponibiliza material do Death e do Control Denied (banda paralela de Chuck), assim como divulga informações, fotos, vídeos etc. Ela também mantém contato com os fãs até hoje, respondendo as cartas e e-mails dos mesmos. O irmão de um camarada meu tinha uma banda chamada Saunter, também de death-metal, e eles foram gravar um cover de Spirit Crusher. Mandaram uma carta para Jane e ela conversou com eles, totalmente aberta e prestativa.

Uma das “brigas” que Jane mantém é a respeito das “injustiças” da indústria musical, principalmente não prestigiando alguns artistas como deveriam, o caso de Chuck. A triste ironia de toda situação é que, precisou-se um músico sem igual morrer para que esta discussão ganhasse espaço.

Seria melhor que discussão nenhuma fosse criada e Death pudesse continuar fazendo o que sempre fez de melhor, como:

Naquele dia, eu estava andando por aí com um amigo meu quando me ligaram no celular. Não me lembro quem fez a ligação, mas sua voz disse ‘Chuck acabou de morrer…’. Parei, sem palavras, enquanto meu celular escorregava da minha mão para dentro da manga da minha jaqueta.

Foi estranho e surreal, já que nunca havia conhecido o cara pessoalmente, mas o impacto em mim foi gigantesco. Sua música sempre foi uma influência para mim, mas não na minha forma de tocar. É algo mais subconsciente. Minha primeira banda costumava tocar covers do Death e eu me lembro de ter morrido de orgulho quando aprendi a tocar todas do jeito certo, já que eu era tão jovem.

Às vezes me flagro criando riffs que acho que soam demais como Death e acabo não usando nenhum por motivos óbvios. Acabo mudando para que a idéia pudesse se adaptar ao Dimmu Borgir, como fiz no passado, e no Insidious Disease atualmente. Não sei o que Chuck acharia de nossa música nos dias de hoje, mas ouvi dizer de um pessoal de um selo que ele gostou muito do disco de 1998 do Dimmu Borgir, Spiritual Black Dimensions. Eu costumava achar Leprosy meu disco favorito do Death, mas atualmente ando empatado entre o Scream Bloody Gore e o Symbolic. Acho que estes dois mostram Chuck em seus pontos mais altos de evolução musical. O Scream… é totalmente cru e direto e Symbolic é totalmente inovador, com sonoridades modernas. E ambos contam com o estilo único de tocar do Chuck. Ainda escuto sua música.

Silenoz – Dimmu Borgir

Editado dia 16/12/2011: Uma entrevista com o Max Cavalera, do documentário Global Metal do Sam Dunn, aonde ele aparece com a camisa do Death.

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Inté!

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