Cervejas que você não merece

Como eu (não) tinha dito, este blog, embora o nome, não se propõe a seguir um padrão. E, neste post em especial, vocês entenderão ao que me refiro, pois não farei um top 5. Voltando ao que é bom…

Aegir, Ran e suas nove filhas fermentam cerveja no caldeirão.

Neste mundo existem milhares de tipos e fábricas de cerveja. Algumas industriais e mais famosas, como a renomada holandesa Heineken ou a belga Stella Artois; algumas artesanais, como as gaúchas Abadessa e Coruja. Algumas ainda na categoria de trapistas, como a belga Achel e a também belga Chimay. Há também uma variedade enorme de tipos de cerveja, passando pela popular (e mais consumida no mundo) Pilsen, assim como as cervejas de alta fermentação e com sabor acentuado, como as Porters e Ales. Eu me recordo de um episódio do saudoso Beakman em que ele nos informava que existiam mais de 3 mil tipos de arroz no mundo. Se você for contabilizar o número de cervejas, passa deste número tranquilamente. Com a popularização de produtos importados podemos perceber isto, principalmente no super-mercado, aonde agora encontramos uma variedade absurda de cervejas e, mesmo assim, em um nível mundial aquilo não representa nada.

Mas, voltando ao foco, você nunca parou para se questionar o fato da Pilsen ser o tipo de cerveja mais consumido no mundo? A Pilsen é uma cerveja de baixa fermentação, com baixo teor alcoólico e uma coloração amarela bem clara. A famosa cerveja dourada que você bebe no churrasco, na festa, em casa, em todo lugar. Estima-se que o mercado brasileiro seja composto com 98% de cervejas Pilsen. E o segredo da popularidade deste tipo em específico esta em um fato muito simples: a suavidade. A Cerveja Pilsen é uma mistura de tudo um pouco, de maneira MUITO leve, de modo que não ofenda o paladar de ninguém. Em alguns casos, quando gelada, fica quase sem gosto. E justamente por isso conquistou o mundo. É leve , tem um sabor delicado e é fácil de beber.

Mas e suas irmãs encorpadas? É aí que entra o mercado das Porters e Ales. Ambas cervejas de alta fermentação e, em alguns casos, com teor alcoólico elevado, estes tipo de cerveja apresentam uma coloração avermelhada-cobre, algumas inclusive com uma cor muito específica. Este tipo de cerveja possuí um sabor encorpado e apresenta, quase sempre, um gosto amargo e a presença forte dos ingredientes. Uma cerveja vibrante e, associando isto ao maior nível de álcool, uma cerveja que não agrada a todos os paladares. Diz a lenda que após apreciar uma cerveja desse tipo, você nunca voltará para as Pilsen. E é aí que mora a rixa do negócio.

Os apreciadores de cervejas encorpadas chamam as outras cervejas de apelidos irônicos, como “cerveja amarela aguada” ou “cervejinha amarela”, entre coisas do gênero, principalmente em uma alusão a coloração forte das Ale. Obviamente, isto gerou um mercado de consumidores que, além da cerveja forte, queriam uma bebida reconhecidamente arrogante, que fizesse questão de dizer “eu sou melhor e mais forte que o resto e foda-se“. Então, resolvi reunir uma lista de cervejas que fazem questão de jogar na cara do mundo que são feitas para poucos, que a maioria não gostará delas.

HobGoblin, da cervejaria Wychwood

hobgoblin1

Site: http://www.wychwood.co.uk/#/home//hobgoblin/home

Ta aí a cerveja dos caras. A Cervejaria Wychwood já é deveras interessante por si só. Localizada nas proximidades da floresta homônima (Costwolds, Witney Oxfordshire), diziam-se as lendas medievais que a região era assombrada por criaturas mágicas, poderes sobrenaturais e todo o tipo de ser mitológico e estranho. Os caras da cervejaria resolveram aproveitar a lenda e incorporaram isso a cervejaria, como pode ser vista no site temático e nos itens na loja, que vale a pena conferir. As provocações são claras, como o “What’s the matter lagerboy, afraid you might something taste?” (qual o problema, bebedor de cerveja Lager, com medo de experimentar algo saboroso?), ou o Goblin no site dizendo “Those who enter should be in search of a beer of taste. Follow me if you dare but be warned… most things bite!” (aqueles que entrarem estão procurando por uma cerveja com sabor. Siga se você puder, mas você foi avisado…a maioria das coisas morde!”).

Imagine esta cerveja ao lado de uma Claymore, caçando javalis e tomando cuidado com Leprechauns, porque é isto que ela quer. Homens medievais são arcaicos, e isto que ela também é. Ela não precisa se atualizar, porque cervejas atualizadas são Pilsens sem gosto para pederastas fracotes. Ela veio de uma outra época, preserva suas raízes medievais e é assim que tem que ser. Se tavernas e feudos são passado, é você que está errado e não merece experimentar esta iguaria. Se você entende a Hobgoblin, sente para um banquete, pegue sua caneca de metal e aproveite o momento com a bebida.

Arrogant Bastard Ale, da cervejaria Stone Brewing Co.

Site: http://www.arrogantbastard.com/

A cerveja já diz no nome que não é feita para você. A entrada do site já deixa claro que você não é bem-vindo. Os 4 avisos dizem isso. “Eu estou seguro que as páginas a seguir podem estar cheias de pura arrogância“, “eu não sou um bebedor de cervejinha amarela, aqui, sobre falsas pretensões“. A cerveja é tão arrogante que está até no rótulo, bem grande para assustar os fracos.

Para eles, publicidade é coisa de cervejinha amarela (Pilsen) e o orgulho deles é ser uma bebida para poucos, mas bons consumidores. A marca inteira gira ao redor do consumo diferenciado das Ale e, principalmente, da ironia aos não-bebedores da mesma, chamando-os de fracos, de bebedores de água e afins.

Se arrogância é o que você procura, se o seu ego é maior do que sua vida, esta cerveja lhe completa. A intenção dela é, justamente, humilhar todo o resto, provando que ela não foi feita para ninguém, ela não precisa de ninguém e que, desta forma, sobrevive com sua arrogância típica de uma Ale. Uma cerveja para beber de nariz empinado, sem nenhum amigo enchendo o saco.

Hardcore Ipa, da cervejaria Brew Dog

Site: http://www.brewdog.com/

Esta cervejaria, embora nova, veio para assumir o seu papel: a bebida dos punks. Se cerveja fosse arte – e, obviamente é – esta seria a contracultura. Desigual, transviada, louca, tosca, diferente, chocante e nova. Daria para criar uma lista só de adjetivos para a Brew Dog, que foi a responsável por criar aquela cerveja com Viagra pro casamento do príncipe. Foi também a responsável por criar uma das cervejas com o maior teor alcoólico do mundo, ironicamente chamada de “Sink the Bismarck” (afunde o Bismarck).

Mas a cerveja mais arrogante da marca da contracultura fica a critério de sua Explicit Imperial Ale, chamada de Hardcore Ipa. Como diz o site, esta cerveja tem mais hops (planta) e amargura que qualquer cerveja no Reino Unido. É uma “montanha russa” de cerveja para loucos. Até sua descrição é punk.

Com certeza, se você não sabe o significado de contracultura, não está acostumado ao improvável, uma cerveja dessas não é para você. Uma cerveja Hardcore, feita para os diferentes.

Vale se aventurar no site da empresa, também, para conferir a campanha “Equity for Punks” que a cervejaria promove. A ideia é diminuir os laços entre consumidor e a cervejaria, sendo todos “iguais”. Para isso, eles propõem ao consumidor investir na cervejaria e ganhar dinheiro com isso. Você pode acessar o site e comprar ações lá mesmo. Como diz no vídeo institucional da campanha: você pode ficar mais rico a cada cerveja que beber.

Obviamente, uma cerveja assim só poderia ser escocesa.

Schorschbock 57, da cervejaria Schorschbräu

site: http://www.benz-weltweit.de/derbraeuvomberch/index_eng.html

Uma curiosidade, antes de comentar sobre a cerveja, é que esta cervejaria mantém uma ferrenha briga com a Brew Dog pela cerveja mais forte (em teor alcoólico) do mundo. Mas voltando a Schorschbock 57, está é a “obra-prima” dos caras… uma cerveja com teor alcoólico de 57,5%! Como a própria marca se considera, a “casa das cervejas mais fortes no sistema solar“, nós já podemos entender o “porquê”.

Paremos para analisar: as cachaças apresentam teor alcoólico variando entre 38% e 54%. Está cerveja é mais forte que a cachaça mais forte! Não a toa a cervejaria faz jus ao seu slogan, porque para uma cerveja ser mais graduada que uma cachaça, é porque ela é MUITO alcoólica. Recentemente nos entupiram de vídeos sobre aliens na internet, como este aqui:

Um vídeo curioso sobre o aumento do número de OVNIs sobre a Terra. Mas o que isso se relaciona ao post? Porque mesmo que se descubra vida em outro planeta, com certeza ninguém seria louco (ou imbecil) o suficiente para tentar criar algo tão descomunal como a cerveja aí de cima…o que reforça o seu slogan mais ainda. Esta é o Frankstein das cervejas, o produto que deu errado, a prima estranha que ninguém conversa na reunião de família.

Um monstro desses nunca deveria ter sido cogitado de criar…mas foi. E provavelmente não é feita para você, bebedor de cervejinha amarela sem-graça com teor alcoólico de 4%.

Maximator, da cervejaria Amsterdam

site: http://www.amsterdambeers.com/brands.htm

Da mesma terra da Heineken, cerveja popular no mundo todo, esta foge a regra. O site é sucinto mas específico ao descreve-la, é uma cerveja feita para “o verdadeiro conhecedor“.

A cervejaria com o nome da cidade deixa claro no site (que só apresenta informações pontuais) que a proposta da marca é produzir cervejas fortes, para os paladares refinados. Maximator, dentre todas, é sua filha mais “encorpada”. A cerveja com um teor alcoólico de 11,6% e uma coloração alaranjada é o destaque da cervejaria, que até hoje destaca sua criação como “uma das cervejas mais fortes no mundo“.

O nome já nos avalia do que é de se esperar: máximo. E o termo “máximo”, segundo o dicionário, significa “o maior de todos, superlativo de grande“. É disso o que estamos falando quando alguém se propõe a beber Maximator. Como “a maior de todas“, é importante que o bebedor seja “o melhor de todos“, também, para termos o equilíbrio entre apreciador e produto. Pense bem antes de consumir uma cerveja com nome tão imponente.

A entrada do site ainda nos disponibiliza um “tour” com fotos bem legais de Amsterdam. Como é uma cidade bonita e a marca se utiliza do nome, principalmente pelo valor histórico, resolvi catar umas fotos para colocar aqui em homenagem:

Um fato interessante é que esta, das cervejas citadas, é a única que já pode ser encontrada em super-mercado facilmente.

Thomas Hardy Ale, da cervejaria O’Hallon’s

site: http://www.thomashardysale.org.uk/index.htm

Aqui, temos uma raridade. Como o rótulo diz, “a mais rara Ale na Grã-Bretanha“. Não é só uma cerveja, é uma homenagem. O nome dela vem do poeta homônimo, Thomas Hardy, que é o responsável pela citação que vem na garrafa, do livro Trumpet Major: Era da mais bela cor que o olho de um artista poderia desejar em uma cerveja; encorpada, mas viva como um vulcão; picante, porém sem agredir; luminosa como um pôr-do-sol de outono.

A cerveja é tão controlada que todas as garrafas são safradas, com o ano de produção e possuem uma numeração especial e exclusiva. Para você, como eu, brasileiro, descolar uma garrafinha destas saí pela bagatela de uns 50 a 60 reais. E mesmo assim estamos sujeitos as condições e quantidades a qual a bebida é produzida. Como diz o poema e, como bela homenagem ao próprio escritor, “viva como um vulcão“, esta cerveja é para os paladares mais apurados, assim como o próprio escritor era para seus leitores.

Suas edições limitadas provam por si só que, mesmo com o glamour e a procura, a cervejaria não está nem aí para você. A garrafa e o líquido são uma obra de arte e devem ser tratados como tal, com uma quantidade anual certa e dedicação à fabricação, para o público correto. Exclusividade também é vantagem e certificado de qualidade. Thomas Hardy concordaria com a cerveja em sua homenagem e certamente seria um entusiasta da mesma. Ao resto, bebedores de cerveja comum, que continuem com as suas; ou na “fila” para beber uma Thomas Hardy e entender o seu potencial.

Bom, galerinha. Por enquanto é só.

Para os bebedores de cervejinha amarela, este post será uma ofensa.

Para os arrogantes, podem apreciar!

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